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Folia de momo

Grupo garante a sobrevivência do carnaval de rua de Curitiba

Nesses dias que antecedem ao Carnaval, a conversa é a mesma em Curitiba: já que o curitibano não é muito dado à folia momesca preparada na capital, a data deveria ser aproveitada para a realização de eventos destinados a quem não tem samba no pé. Entretanto, para um grupo de resistentes, tal afirmação soa como ofensa. São pessoas que não só se divertem aqui, mas também se dedicam ao máximo para que a capital paranaense não perca o elo com a principal festa popular do país.

Um dos principais defensores dessa bandeira é o médico geriatra Saul D'Ávila, 48 anos. Há 11 anos, D'Ávila preside a Liga das Escolas de Samba de Curitiba. Nesse período, ele viu o número mínimo de foliões por escola cair de 650 para os atuais 230. Evidentemente, nada comparável com o universo de 4,5 mil integrantes por escola do Rio de Janeiro. Mas, conforme ressalta o presidente da liga, aqui a festa ainda permanece sob a tutela dos populares, ao contrário do Rio, onde o ingresso mais barato para assistir ao desfile é de R$ 200.

"Em Curitiba o carnaval existe pela vontade das comunidades. Como não há o aporte comercial do Rio e São Paulo, aqui o carnaval é a mais pura manifestação popular", defende D´Ávila, envolvido com a festa desde 1982. Para colocar o time na avenida, cada uma das quatro escolas do grupo A recebeu R$ 21 mil da prefeitura. Já as três do grupo B receberam R$ 15 mil cada.

Alegria

Um exemplo da força popular pode ser visto na escola Embaixadores da Alegria, do Campo Comprido. Em um barracão de 1,3 mil metros quadrados e ainda inacabado, um grupo de pessoas se dedica à produção das alegorias que estarão na Avenida Cândido de Abreu, no Centro Cívico, sábado – o desfile vai das 17h30 às 2 horas. É gente como o desempregado Wilson Sebastião Garcia, 44 anos, que participa da montagem dos carros alegóricos.

Ex-morador de rua – passou a ter endereço fixo quando entrou para a escola há oito anos –, Garcia entregava à Embaixadores material que recolhia como catador de papel para ser reciclado. Desde então, nos dias que antecedem a festa, Garcia deixa a casa em Almirante Tamandaré, região metropolitana, para morar na sede da escola. Ali, ele também é responsável pela manutenção do material. "É uma alegria muito grande ver o resultado do trabalho de todo mundo na avenida", afirma Garcia, que, quando era morador de rua chegou a ser espancado enquanto dormia e a ser esfaqueado por um companheiro alcoolizado por simplesmente não querer beber. "Nunca bebi na minha vida", diz.

Também na Embaixadores, a pensionista Eudina Duarte Prestes, a dona Ondina, como é conhecida, 85 anos, é responsável por tecer as 200 fantasias, além de comandar a ala das baianas. Levada ao carnaval há 25 anos pelo segundo marido, Mário Rodrigues, já falecido, hoje é ela quem arrasta a família para a avenida. Estão com ela na escola os netos Cristofer (cantor), Priscila (decoradora), Alexandre (tocador de cavaquinho), o bisneto Jordon (da ala infantil) e a ex-nora Sueli (decoradora e passista). "Meu filho não vem mais porque a mulher dele não gosta de carnaval", explica. Além deles, dona Ondina ainda levou uma comadre e vizinha – hoje um dos destaques da escola –, a policial militar da reserva Lídia França, 57 anos.

No dia-a-dia da escola, Lídia é responsável por fazer a comida do pessoal que trabalha no galpão. "Ela me chantageou para ir para a avenida. Disse que se eu não fosse, ela poderia não estar mais aqui no próximo ano", entrega Lídia, com a comadre rindo ao lado. "Tinha que pegar no ponto fraco dela", esclarece dona Ondina.

Serviço: o carnaval da Avenida Cândido de Abreu, no Centro Cívico, começa às 17h30 de sábado. A previsão é de que todas as escolas desfilem até por volta das 2 horas de domingo.

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