
Ponta Grossa - Em duas décadas, o número de baleias mortas por caçadores praticamente dobrou em todo o mundo. Atualmente, quase 2 mil animais são assassinados por ano. E, mesmo existindo há 25 anos tentativas de preservação das baleias por meio de acordos internacionais, alguns países como Japão, Noruega e Islândia continuam permitindo a caça. Para minimizar, então, o número de mortalidade desses animais, principalmente das espécies fin, minke e bryde, um pesquisador da Universidade da Califórnia, o economista ambiental Christopher Costello, propôs há poucos dias, na revista Nature, uma alternativa para preservar as baleias: criar um mercado para elas.
A ideia é que caçadores e ambientalistas entrem nesse mercado e paguem por suas baleias, tanto para matá-las quanto para preservá-las. Dessa forma, caçadores poderiam comprar o direito para praticar a caça e ambientalistas pagariam para proteger os maiores mamíferos dos oceanos. O economista norte-americano afirma que o lucro da indústria baleeira mundial chega hoje a US$ 31 milhões, enquanto grupos de ambientalistas gastam cerca de US$ 25 milhões para lutar contra a caça. Segundo ele, o montante aplicado em ações ambientais poderia ser usado para comprar baleias e diminuir o lucro dos caçadores.
A proposta de Costello surge duas décadas e meia depois de a Comissão Baleeira Internacional (CBI) ter proibido a caça. Japão, Islândia e Noruega permanecem desafiando a determinação. O primeiro faz uso da desculpa de que explora baleias para fins de pesquisa científica, finalidade permitida pela CBI. A Noruega e a Islândia se aproveitam de brechas nas medidas que oferecem cotas para países que realizam "caça de subsistência".
"Eles usam isso como desculpa para praticar uma caça comercial. Hoje não é necessário sacrificar o animal para realizar um estudo, por exemplo. É possível sair a campo com navios ou fazer sobrevoos nas áreas onde os animais se localizam", afirma a bióloga e diretora de pesquisa do projeto Baleia Franca, de Santa Catarina, Karina Groch. Para a proposta de Costello entrar em vigor, porém, ainda é necessário um acordo global entre os países que defendem e os que proíbem a caça. No Brasil, a prática é proibida desde a década de 80.
Riscos
O modelo defendido pelo pesquisador norte-americano corre o risco de se mostrar ineficaz. Para o economista ambiental Jorge Nogueira, professor da Universidade de Brasília (UnB), o mercado baleeiro só será válido se os caçadores sentirem o impacto da matança dos animais no próprio bolso. Segundo ele, instrumentos econômicos têm sido usados na política ambiental para que a população pague certa quantia e possa usufruir do que a natureza oferece. "Mas tudo vai depender de quanto será pago para caçar as baleias. Se for uma quantia considerada pequena, sinto informar, mas as baleias vão desaparecer. O pagamento vem como uma medida para que os caçadores sintam o impacto no bolso e se sintam estimulados a procurar outra alternativa de renda", explica Nogueira.
Ambientalistas querem acabar com a caça
A proposta de criar um mercado para vender baleias, defendida pelo pesquisador Christopher Costello, não agrada aos ambientalistas, que lutam pelo término completo da atividade da caça em todos os países. "Essa proposta foge ao que preconiza a Comissão Baleeira Internacional. O que se precisa hoje é zerar a mortalidade dos animais", afirma a coordenadora de campanha do Greenpeace, Leandra Gonçalves. Ela ainda consideraque o mercado de carne e óleo da baleia está fadado ao fracasso. "Não está tendo mais consumo nos países que permitem caça. Somente no Japão existem quase 4 mil toneladas de carne de baleia congeladas, porque não há consumo interno", afirma Leandra.
O governo japonês alega que a caça e o uso da baleia na alimentação fazem parte da cultura do país. O Japão ainda argumenta que, com uma possível crise alimentar mundial, a tradição de comer carne de baleia pode ser uma alternativa.
Polêmicas
A diretora do projeto Baleia Franca, Karina Groch, considera a proposta de criação do mercado baleeiro extremamente polêmica. "É uma forma de a comunidade mundial dizer que aceita que se matem as baleias. Mas, por outro lado, é necessário um acordo que possa, pelo menos, minimizar o número de animais mortos em virtude da caça", diz a bióloga.




