
Às 23h41, enquanto a maioria dos colegas chega para bater o cartão e ir embora, o motorista Justo Castagnara e a cobradora Maria Enilda Nunes embarcam no carro 16C36 para mais uma madrugada de trabalho. Às 23h57, os amigos Nelson Ivo Ferreira, auxiliar de arquivos, 22 anos, e Shaene de Oliveira, caixa, 20 anos, correm até o tubo de ônibus da linha Boqueirão, na Praça Carlos Gomes, e passam o cartão-transporte na catraca, que apita duas vezes e sinaliza em vermelho. "Só o madrugueiro agora", avisa o cobrador.
À 0h05, o ônibus amarelo encosta na esquina da Pedro Ivo com a Marechal Floriano e, um minuto depois, Nelson e Shaene entram correndo para se proteger da chuva, cumprimentam Justo e Maria Enilda, e sentam na última fileira de bancos do madrugueiro Boqueirão. A viagem terá mais três passageiros, estes anônimos: dois amigos vindos de uma pelada, ainda vestindo uniforme de futebol, e um homem ensopado e "cozido" em igual medida.
De hora em hora
Após a meia-noite, o transporte público de Curitiba muda de figura. Saem os vermelhões e azulões, articulados e integrados, e assumem os amarelinhos convencionais, com viagens centro-bairro de hora em hora. O sistema de ônibus madrugueiros de Curitiba possui 29 linhas, que fazem 97 viagens por noite. Para pegá-los, é necessário estar no lugar certo, na hora certa. Os pontos iniciais se dividem entre as praças Rui Barbosa, Tiradentes, Santos Andrade e Carlos Gomes.
Em tempos de lei seca rigorosa, um sistema de transporte público eficiente durante a madrugada seria uma forma de garantir a eficácia da lei, dando um motivo a mais para as pessoas deixarem o carro em casa. O atual madrugueiro, porém, não é para iniciantes.
Os amigos
Nelson e Shaene são amigos e vizinhos. Moram relativamente perto do Terminal do Boqueirão e usam o madrugueiro quando o happy hour estica além da conta. Voltam juntos por questão de segurança, precaução adicional para moradores de um bairro "não tão seguro". Apesar de nunca terem tido problemas, captam uma hostilidade constante no ônibus. Uma ou outra baderna, da qual se esquivam sentando nos cantos do veículo. É uma ação comum entre os poucos passageiros do serviço. Ali, o isolamento faz a força.
Os madrugueiros transportam, em média, 1,7 mil pessoas nos dias úteis, uma média de 17 passageiros por viagem. A quantidade dobra nas madrugadas baladeiras (sexta para sábado e sábado para domingo). O embrião desse sistema surgiu no fim dos anos 1980, quando alguns expressos ("pais" dos biarticulados) estendiam o horário de atendimento para depois da meia-noite. Empresas da Cidade Industrial também pediram reforço noturno. Então foram criadas as linhas especiais. E ficou nisso desde então.
"Toda mudança ou aprimoramento leva em consideração questões de escala e custos. Agora estamos em um novo momento, com a questão da lei seca, então podemos discutir se é viável ampliar o transporte noturno", pondera Roberto Gregório da Silva Junior, presidente da Urbs.
O motorista e a cobradora
"Você imagina dirigir nessa Marechal Floriano às seis da tarde. O cara fica louco", fala Justo, 46 anos, que trabalhou em linhas interestaduais e gosta de dirigir à noite. A contrapartida é a insegurança. Ele lembra do dia em que um homem sentou sobre a tampa do motor e ameaçou-o com uma pedra, dizendo que o motorista deixou de apanhá-lo diversas vezes. Sua colega, de 44 anos, narra a noite do ano-novo fora de época, quando o veículo foi depredado por dezenas de jovens. Os profissionais da madrugada dividem os passageiros entre "trabalhadores" e "baderneiros". Os primeiros são estáticos; dormem com a cabeça encostada no vidro. Os outros são elétricos; falam alto e mudam várias vezes de lugar.
"Câmeras no ônibus, com monitoramento on-line, inibem a ação de infratores. O motorista aciona a polícia diretamente, e duplas fazem patrulha por amostragem. Assim os usuários se sentem menos vulneráveis", recomenda o arquiteto e urbanista Luís Henrique Fragomeni, ex-presidente do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc) e professor da Universidade Federal do Paraná.
O leitor solitário
Paulo André da Costa, um professor de Educação Física de 38 anos, lê sobre o primeiro escalador a atingir o cume da montanha Annapurna, no Himalaia. São 0h58 e ele está sentado no banco duplo do madrugueiro Uberaba antes da roleta. É a sua estratégia de solidão. Longe dos outros passageiros, pode se concentrar melhor. "Mas é só literatura de entretenimento. Não tenho cabeça para estudar", diz. Paulo tem jornada dupla e faz bicos como garçom. Ele usa o madrugueiro por morar próximo à Avenida Senador Salgado Filho. Paga a passagem à 1h27 e desce do ônibus à 1h28. Após um dia e noite de trabalho, está em casa.




