
Da realidade das ruas às conclusões das pesquisas acadêmicas. Não importa a origem da informação. Quando se fala das condições físicas dos policiais, a constatação acaba sendo a mesma: a maioria deles está com uns quilinhos a mais. Os índices de sobrepeso entre os policiais, conforme pesquisas realizadas em diferentes estados, atingem 64% da tropa. E a situação de saúde deles é pior do que a média da população brasileira, constata a pesquisadora do Centro Latino-Americano de Estudos de Violência e Saúde Jorge Careli (Claves), Maria Cecília Minayo.
O instrutor de musculação e ginástica da Polícia Militar (PM), soldado José Pedrini Neto, conta que no quartel em Curitiba há uma academia grande, com diversas atividades, e gratuita, mas que dificilmente fica cheia. "O sedentarismo é grande", lamenta. Ele considera que a falta de preparo físico interfere no trabalho policial. Pedrini lembra que, quando fazia o policiamento nas ruas, percebia que alguns colegas evitavam correr. "Eu era chamado de recruta porque corria atrás de bandido, mas, na verdade, eles não tinham gás para isso."
Os policiais que possuem aptidão física ideal têm baixa incidência de doenças e alta capacidade de trabalho. Essa foi a conclusão da dissertação de mestrado do tenente-coronel Reinaldo Boldori, da PM de Concórdia, em Santa Catarina. Numa pesquisa anterior, Boldori já tinha descoberto que 45% dos PMs do estado tinham peso inadequado e 8% eram obesos.
No Paraná, os índices verificados ficaram acima dos resultados catarinenses. A pesquisa realizada pela mestranda em Nutrição pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), Elis Carolina de Souza Fatel, em parceria com a doutoranda Ana Flávia de Oliveira e os professores doutores Isaias Dichi e Jane Dichi, verificou que 64% dos avaliados estavam acima do peso, dos quais 17% eram obesos.
Elis fez a avaliação nutricional de 353 policiais militares de Cascavel. A princípio, iria só avaliar o cardápio, mas decidiu ampliar o projeto. "Fizemos avaliação e tivemos essa surpresa", afirma. Segundo ela, a maioria dos policiais não procura médico, muitos não sabiam que eram hipertensos ou diabéticos e nem possuíam rotina de atividade física. No entanto, ela observa que o comando militar se preocupa muito com a questão e afirma que não se deve culpar os policiais.
O Centro Latino-Americano de Estudos de Violência e Saúde Jorge Careli (Claves) fez o diagnóstico dos policiais acima do peso no Rio de Janeiro. Os dados, levantados em 2006, mostraram que 63,8% dos cabos e soldados estavam acima do peso, desmistificando a idéia de que o problema só afeta oficiais com mais tempo de carreira. O sobrepeso atingiu 47% dos oficiais e sub-oficiais e 48% dos cabos e soldados. Já a obesidade atingiu 23,5% dos oficiais e 15,8% dos soldados.
Segundo a coordenadora científica do Claves, Maria Cecília Minayo, a pesquisa encontrou precaríssimas condições de trabalho e saúde, a começar pela alimentação. Segundo ela, todos os entrevistados concordaram que a refeição oferecida pela corporação é muito ruim. "Acho que a alimentação é um problema concreto. A comida é pouca, é malfeita, eles comem mal e o resultado disso é que os policiais estão obesos e acima do peso", afirma. "Mas a alimentação não pode ser responsabilizada por tudo." A Secretaria de Estado da Segurança Pública do Paraná não quis se pronunciar sobre o assunto.



