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Folclore caiçara

PR quer fandango reconhecido

Instituições do estado – e também de São Paulo e do Rio – pedem ao Iphan o registro da manifestação artística como patrimônio cultural do país

Tamancos feitos de couro e madeira são usados pelos homens para fazer marcações durante o fandango | Theo Marques-arquivo
Tamancos feitos de couro e madeira são usados pelos homens para fazer marcações durante o fandango (Foto: Theo Marques-arquivo)

Os fogos de artifício e o barulho dos tamancos que batem na madeira sem parar avisam: hoje é dia de fandango. A festa típica da população caiçara – que vive no litoral do Paraná, São Paulo e Sul do Rio de Janeiro – nasceu de uma necessidade. Na roça, quando o trabalho era mais pesado, usava-se o mutirão como forma de ajuda mútua. Vizinhos colaboravam no plantio ou na preparação da terra e, no final do dia, o proprietário se comprometia em pagar o trabalho feito com música e farta refeição. Hoje, dificilmente se encontra o fandango caiçara desta maneira. A manifestação está organizada e novos grupos fandangueiros apareceram: eles se apresentam em shows e acrescentaram novas melodias à antiga maneira de bailar.

Não se sabe quantos mestres – designação dada aos fandangueiros mais antigos que tocam viola e cantam – ainda estão vivos. Historiadores também divergem sobre a origem do fandango, porque há poucos documentos da época que registraram como tudo aconteceu. Por causa disso, duas instituições do Paraná, cinco do estado de São Paulo e outras duas do Rio juntaram o material que tinham para formar um dossiê – entregue na semana passada a uma representante do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O objetivo é registrar o fandango caiçara como patrimônio cultural do Brasil, assim como já são o samba e a capoeira. Será o plano de sobrevivência desta manifestação. Há grandes chances de o pedido ser aceito, segundo a gestora cultural do Rio, Joana Corrêa, que ajudou na elaboração do pedido. Ela lembra que todo o trâmite deve durar cerca de dois anos. Entretanto, se o Iphan aceitar o registro, uma força-tarefa será formada para ser criado o inventário do fandango: será trabalho para se perder o folêgo. A aceitação do pedido também significa um novo olhar ao Sul do Brasil: será a primeira manifestação cultural reconhecida por aqui.

Histórico

Há duas vertentes para explicar a origem do fandango. Uma é a de que ele foi originado aqui e a outra é a de que ele tem matriz histórica na Península Ibérica. A pesquisadora e musicista Daniella Gramani conta que no século 17 já havia descrições do fandango em Portugal – ele era apreciado por todas as camadas sociais. Por isso pode ter sido criado lá e depois foi trazido pelos imigrantes. No Brasil, o fandango foi incorporado às características de cada região e, assim, há hoje três divisões desta manifestação: o caiçara, o gaúcho e o nordestino. "Não se sabe se eles têm a mesma origem. Pelos textos dos cronistas da época, que descreviam sobre coisas que se pressupõe ser o fandango, acredito que eles têm a mesma matriz", explica Daniella. No fandango caiçara o nome de algumas músicas são semelhantes às tradicionais gaúchas, como Anu e Chamarrita, apesar de o modo de dançar ser diferente. "O termo fandango significa tocar lira (instrumento de corda). A própria palavra tem origem que fica difícil ser identificada historicamente, porque pode ter sido usada para nomerar diversas expressões artísticas", afirma Daniella.

No século 18 aparecem os primeiros registros do fandango no Brasil, apesar de pesquisadores acreditarem que ele já existisse há mais tempo por aqui. Nesta época, do período colonial brasileiro, o fandango acontecia em todas as classes sociais. "Não havia distinção do que era plebe e nobreza. Todos dançavam", conta a historiadora e antropóloga da Universidade Federal do Paraná, Patricia Martins. Somente por volta de 1850, já no século 19, é que o fandango se recolhe às áreas rurais. No processo de civilização da sociedade, a nobreza passa a usar os costumes da Europa e extingue o fandango dos salões imperiais. Na roça, ele é usado como recompensa por um dia de trabalho. Também passa a ser incorporado nos casamentos e celebrações religiosas.

Por volta da década de 80, as severas restrições ambientais quase que extinguiram o fandango caiçara. A fundação dos parques nacionais, a proibição da caça e da pesca fez com que muitos caiçaras deixassem a área rural e migrassem para os centros urbanos, abandonando a prática. A extração da caixeta, madeira usada para fazer o corpo dos instrumentos utilizados no fandango, também ficou restrita, prejudicando os fandangueiros.

As novas gerações do fandango, como Aorélio Domingues, lutam para preservar a cultura caiçara. Ele sabe de cor as lendas criadas pelos mais antigos, como a proibição de dançar o fandango na quaresma sob pena de azar. E lembra ainda que a masculinidade do homem está representada na força com que os tamancos são batidos no chão. Houve fandangueiros que ficaram conhecidos como Machado, porque a força usada para bater os tamancos chegava a quebrar as tábuas do assoalho.

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