
Em tempos de mercado de trabalho carente de mão de obra especializada, a falta de professores nas escolas técnicas (tanto superiores quanto de ensino médio) acende a luz amarela sobre a capacidade do Paraná de formar profissionais. Na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), onde as aulas começam em dez dias, 10% do quadro de docentes continua em aberto: faltam 110 do total de 1.594 professores. Já o Instituto Federal do Paraná (IFPR) não contratou ainda 237 dos 630 profissionais que serão necessários neste ano. A diferença é que a nomeação no IFPR pode ser feita até o meio do ano, já que a maioria dos cursos só começa em agosto.Para resolver o problema, que não é exclusivo do Paraná, o governo federal editou uma medida provisória nesta semana, autorizando as universidades e institutos federais a contratar emergencialmente 3,5 mil professores substitutos e assim garantir o início das aulas. Os docentes selecionados ficarão dois anos em sala de aula, até que concursos voltem a ser autorizados. Todos os processos de contratação via concurso para esse ano foram suspensos como parte das medidas lançadas pela União para cortar R$ 50 bilhões no orçamento.O caminho encontrado pelo governo Dilma desagrada ao Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes). Segundo a presidente da Andes, Marina Barbosa Pinto, a falta de professores nas universidades e institutos é enorme. "Isso é resultado de 10, 12 anos em que a universidade deixou de ser alimentada com recursos públicos. No governo Lula, isso começou a mudar, com a expansão da rede. O problema é que esse crescimento se iniciou e se assenta numa estrutura deficitária. Novas escolas foram abertas, mais alunos entraram no sistema, mas, em função disso, aumentou exponencialmente a carência de mão de obra. Até foram feitos concursos e contratações, mas não em volume suficiente para atender à demanda criada", explica.
Ela sustenta que as contratações emergenciais podem resolver o problema imediato, já que há muitos professores inclusive com mestrado e doutorado esperando uma oportunidade para ingressar na rede federal. A qualidade no ensino, porém, pode ficar comprometida, pois o envolvimento dos temporários com a universidade costuma ser menor, com prejuízos para os estudantes.
O professor João Negrão, tesoureiro-geral da Associação dos Professores da Universidade Federal do Paraná (que representa também os docentes dos institutos), é da opinião de que a expansão da rede de institutos federais ocorreu de forma muito rápida e até desmedida. Ele tem dúvidas se o Paraná terá condições de preencher o grande volume de vagas abertas com profissionais realmente qualificados, ainda mais na condição de temporários. "O salário de professor já não é mais tão atraente, em comparação com que o mercado vem praticando. Para piorar, a vaga temporária não atrai profissionais de outros estados que poderiam se estabelecer no Paraná, porque ninguém muda toda a sua vida sem garantia de futuro." O efeito deste processo, defende Negrão, será a queda na qualidade da mão de obra qualificada. "Se não surgirem candidatos com o grau de capacitação exigido, a tendência é que esse processo seja revisto e que se contratem profissionais com menor nível de capacitação. Quem perde com isso é o aluno e quem precisará contratar esses futuros profissionais", resume.
Estratégias
A presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH) no Paraná, Sônia Gurgel, diz que uma das estratégias para atrair mais professores para as escolas técnicas passa por um maior reconhecimento da profissão e do papel do ensino técnico no país. Ela afirma que a contratação temporária é um paliativo para corrigir o déficit, mas pode ser arriscado. "Se não for garantida a estabilidade, poucos profissionais vão largar o mercado de trabalho, que remunera bem nessa área, por algo incerto. Talvez os mais inexperientes, recém-formados, mas, para garantir que os estudantes saiam bem capacitados, é preciso investir em professores com experiência."
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