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Verticalização em Curitiba

Um dos momentos mais interessantes – e menos conhecidos – do processo de verticalização em Curitiba ocorre nas décadas de 20 a 40 do século 20. É uma era de movimentos de renovação na Arquitetura que, sob denominações diversas, irão chegar ao Modernismo. Em velocidades e intensidades desiguais para países e regiões de países, o movimento que ganha impulso após o Salão das Artes Decorativas de 1925, em Paris, terá sua fase de maior afirmação entre nós nos anos 30.

Dois antecedentes são notáveis: o edifício Moreira Garcez, primeiro a arranhar os céus curitibanos (1926), com sua ornamentação misturando elementos ecléticos e art-déco; e a casa de Frederico Kirchgassner (1929) modernista com remanescentes da estética déco. O primeiro guarda sinais da fase antecedente; o segundo avança na fase em gestação.

Embora a cidade guarde construções públicas da tendência déco – o Correio Velho, o antigo Cefet, o edifício das Ciências Agrárias da UFPR – a transformação mais interessante se dá nas residenciais – onde atestam uma transformação que ainda carece de estudo sistemático.

Claro que o sobrado é uma fórmula mais antiga que a própria cidade, mas sob o pó-de-pedra que reveste as construções do período, começa a ocorrer uma compactação da moradia como resultado previsível: quando o chão se torna caro, maximiza-se seu potencial de mercado.

Existem ainda muitos exemplares, principalmente nas esquinas da região central da cidade, variando dos dois níveis tradicionais até seis e podendo chegar a oito pavimentos, sempre evidenciando a compactação crescente da habitação de classe média.

A partir dessa altura, há um salto – graças à tecnologia dos elevadores e do concreto, aliadas à obsessão da modernidade – para as construções de 15 andares, nas praças e ruas mais tradicionais da cidade: edifícios Marumby, Santa Júlia, Rosa Perrone. Todos ainda guardando elementos de estética déco e aguardando, com indisfarçada ansiedade, pelo Modernismo e suas linhas retas.

Este já se faz notar inicialmente com as características trazidas por Le Corbusier para o Ministério de Educação e Saúde no Rio de Janeiro; as linhas retas, os pilotis, os brise-soleil e grandes áreas de vidro do Palácio Iguaçu e do Conjunto da Reitoria da UFPR, ambos do início da década de 50.

Ao longo dos anos 50 e início dos 60, são freqüentes os grandes edifícios projetados por arquitetos curitibanos estabelecidos em outras cidades – ou de profissionais dessas cidades para projetos isolados.

O processo de verticalização se torna como que inevitável – ou assim é entendido – e descontrolado a partir de meados dos anos 60: o próprio Plano Diretor da Cidade, de autoria de Jorge Wilhelm, já se preocupa em estabelecer áreas prioritárias de verticalização, ao longo das Avenidas Estruturais. A verticalidade se assume com seu pressuposto, o adensamento, uma vez que são vias concebidas para transporte de massas.

A verticalização é imposição capitalista, assim como o automóvel, às cidades. Seu impacto sobre a vida urbana é inquestionável, mas sua validade tem sido pouco questionada.

Key Imaguire Junior é arquiteto e professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

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