| Foto: Fotos: Ivonaldo Alexandre/Gazeta do Povo
Eduardo Requião, secretário da Representação do Paraná em Brasília

BRASÍLIA - Um mês após assumir a Secretaria de Representação do Paraná em Brasília, Eduardo Requião diz que está "trabalhando, vendo e ouvindo" em favor da candidatura do irmão governador à Presidência da República em 2010. Roberto, nas palavras de Eduardo, tem a experiência e a força política necessárias para o cargo. Caso o sonho presidencial não vingue, a solução "óbvia", segundo ele, seria concorrer ao Senado.

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Em entrevista exclusiva concedida à Gazeta do Povo na última quarta-feira em Brasília, Eduardo também falou sobre assuntos polêmicos como nepotismo e revelou os planos de desenvolver um programa de televisão para a Paraná Educativa direto da capital do país.

"Queremos entrevistas abertas e polêmicas. (...) Se eu convidar apoiadores do nosso governo, também vou convidar opositores, para que a população possa ter uma visão mais aberta, mais nítida, do que estamos fazendo aqui (Brasília) e do que estamos fazendo lá (Paraná)", disse o secretário, que prometeu empenho para melhorar a relação entre o governo do estado e a bancada federal do Paraná.

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Recentemente o governador Roberto Requião disse que quer fazer da Secretaria de Representação um "apoio dos prefeitos do Paraná nas suas reivindicações diante do governo federal". Por que isso não ocorreu nos seis anos anteriores de mandato?

No momento, com os novos programas do governo federal, todas as representações de estados estão se readequando. Hoje já existe uma associação de secretários das representações que se une para discutir o acompanhamento dos projetos e dos processos legislativos em Brasília. A ideia central é dar suporte aos prefeitos. Nós partimos na mesma direção. Além disso, vamos implantar um programa de televisão gerado por aqui. Vamos ter em Brasília um equipamento à disposição de prefeitos, deputados e senadores para colocar suas reivindicações perante o governo federal e o seu posicionamento com relação às decisões do governo do Paraná.

Qual diagnóstico o senhor faz da secretaria hoje e qual seria o formato de funcionamento ideal?

A secretaria funcionava somente como um ponto de apoio e de representação. Isso não é um procedimento de seis anos, como você perguntou. É de 30 anos. No período do governo Jaime Lerner, ele tentou transformar a representação em uma secretaria. Durou um tempo pequeno, o Requião assumiu e voltou a ser só um espaço de representação. O que era o trabalho? Marcar entrevistas com ministros, reservas de hotéis, locação de veículos, ajudar os servidores e secretários do Paraná no seu trabalho em Brasília. O que estamos colocando agora é um apoio administrativo, além do logístico. Nós pretendemos acompanhar todo o desenrolar dos processos iniciados em Brasília. Antes não havia esse acompanhamento. Também vamos buscar no governo federal espaços e possibilidades dentro dos programas já existentes para apoiar os nossos prefeitos.

Como vai funcionar exatamente esse programa de televisão que o senhor se referiu? Será aberto a todos os prefeitos, deputados, senadores, independentemente de partido político?

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Eu acredito que sim. O que eu quero ter aqui é um espaço livre para que se discuta o Paraná. Não vamos proibir que um ou outro, de um partido diferente do nosso, possa participar do programa. Convidei o jornalista Carlos Chagas para nos ajudar com entrevistas. Queremos entrevistas abertas e polêmicas. Precisamos do contraditório. Se eu convidar apoiadores do nosso governo, também vou convidar opositores, para que a população possa ter uma visão mais aberta, mais nítida, do que estamos fazendo aqui (Brasília) e do que estamos fazendo lá (Paraná).

Obrigatoriamente haverá o contraponto?

Sempre haverá o contraditório. Não vou fechar o canal de televisão para ninguém. Se um prefeito vier aqui, e se ele for de uma base de apoio de um deputado de oposição, terá o seu espaço. A intenção é colocar informações de todos os lados on-line para todo Paraná.

Desde 2003 houve só duas reuniões da bancada federal do Paraná com o governador. Não deveria haver uma sintonia melhor entre as duas partes?

Eu acho e vou tentar fazer isso. Mas não é uma coisa tão simples assim. Não basta chegar e dizer: vamos fazer uma reunião. A bancada já se reúne, independentemente do escritório do Paraná. Às vezes convocados por deputados do governo ou de oposição. Eu quero criar um espaço para que nós possamos discutir aqui a bancada como um todo. Como pretendo com eventos trazer essa bancada como um todo e os prefeitos do Paraná também.

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Por que o senhor foi nomeado secretário – e não secretário especial – como os dois antecessores?

Essa é uma questão legal. A secretaria já tinha sido criada pelo governo anterior. Achamos que ela se adequava mais às questões referentes à Súmula 13 (decisão do Supremo Tribunal Federal que permite a contratação de parentes no serviço público apenas para os cargos de agentes políticos, como ministros e secretários de estado). A súmula deixa claro que o secretário especial não seria um secretário de representação política. Não é a minha interpretação e não é a interpretação do governador. Mas é a interpretação que deu o Supremo e é ela que deve ser respeitada. Se a brecha estava aberta, nós utilizamos essa brecha. Ficamos com a proposta anterior e fui nomeado secretário, para poder exercer esse cargo. Senão, seria enquadrado como nepotismo e dificultaria essa ação.

O senhor acredita que essa mudança de nome no cargo veda totalmente o alcance da súmula?

Acredito que estamos de acordo com o que está na súmula. Como estaria de acordo se tivesse concordado em ser secretário de Transportes.

Qual a opinião pessoal do senhor sobre a súmula 13?

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Acho que precisamos moralizar o serviço público. A contratação de parentes é uma coisa que precisa ser mais discutida. Quem é o parente? Que afinidade essa pessoa tem? Essa pessoa faz política? Nós, por exemplo, eu e o Roberto, fazemos política desde os tempos de meu pai, desde os 13 anos de idade. Eu como cidadão e participante da política não posso ficar de fora simplesmente porque sou irmão do Roberto. Eu tenho condições de exercer as funções que eu exerço e acho que exerço bem. Agora, existem abusos, que precisam ser limitados. Não há possibilidade de manter isso aberto como estava. As pessoas têm sempre as suas referências diretas. A família é uma referência, não só na política. Os advogados têm seus filhos advogados, há famílias de médicos, engenheiros, artistas, jornalistas. Há os donos de jornais que passam seus jornais para os filhos, sobrinhos e netos. Mas, na coisa pública, a leitura é distinta. Mas a força da relação entre as pessoas que se conhecem é muito grande. Eu diria a você que é idêntica na atividade pública e na privada. O Roberto poderia ser meu sócio no meu empreendimento, como eu acho que posso ser parceiro dele na administração da coisa pública.

O senhor foi superintendente dos portos e agora é secretário da Representação em Brasília. Não são duas funções distintas, que exigem perfis profissionais distintos?

Os jornalistas tentam dar essa interpretação, não só na minha situação específica como em todas. Por quantos ministérios já passaram alguns ministros do governo Lula e quantas funções tiveram? Administrar uma indústria, um hospital ou um aeroporto não é uma coisa muito distinta uma da outra. Ou você tem capacidade de administrar, consegue se articular buscando assessores qualificados, ou não consegue. Acontece o mesmo com os deputados. Temos todas as representações políticas no Poder Legislativo. Agora, transformar os legisladores em administradores é o que poderia levar a uma suspeita maior. Ou sujeito é qualificado ou não é. Agora, se ele é um administrador, ele tanto administra o Porto de Paranaguá, a Sanepar, a Copel, como pode trabalhar no Escritório de Representação do Paraná em Brasília.

O senhor falou que é contra abusos no caso do nepotismo. O que são esses abusos?

Eu acho que existem abusos em todas as atividades. O abuso está no perfil, na personalidade do ser humano. Nós somos saudáveis, mas isso não significa que as patologias não se manifestem em alguns momentos. As perversões estão aí. A gente tenta trabalhar com o lado bom dessas criaturas, dos seres humanos. Isso não significa achar que o ser humano é uma maravilha. Nós somos imperfeitos, tanto na atividade pública quanto na privada.

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Por que o senhor não aceitou o cargo de secretário de Transportes? O que houve nessa situação? O senhor chegou a ser nomeado e não assumiu.

A Secretaria de Transportes é grande, articulada, extremamente forte e muito bem conduzida pelo Tizzot (Rogério, atual secretário). Dividir a secretaria, como chegou a acontecer, para manter o Tizzot em um seguimento e eu em outro, achei que não era o ideal. Eu estaria pegando um carro em alta velocidade e não conseguiria agregar muito. Não teria tempo para realizar as modificações que eu até acho que poderia fazer. Isso não significa achar o trabalho do Tizzot ruim, muito pelo contrário. A Secretaria de Transportes precisa ser assumida no início do governo, com uma equipe própria. Eu não iria interferir na equipe que o Tizzot mobilizou durante seis anos. Eu seria um estranho naquele ninho. Se fosse no início do governo, eu aceitaria, seria um desafio muito interessante.

O senhor pretende ser deputado federal?

Não. Aliás essa questão surgiu na imprensa. Em alguns momentos é para tentar me queimar. Em outros, para evitar outros tipos de discussão. Eu posso querer ser candidato a outra coisa. As candidaturas vão surgir por aí. Não está nos meus planos, mas ser deputado federal está no meio político e eu atuo nessa área. Acho que se o PMDB tiver candidato próprio a presidente da República e se o Requião for escolhido eu sou candidato a continuar articulando essa candidatura. Se isso vingar, trabalharei com ele. Se o PMDB coligar-se com outro partido – e nessa coligação houver espaço para que o Requião possa ocupá-lo – também trabalharei nesse sentido. Serei muito mais útil nisso do que sendo deputado federal.

Essa seria a função política do senhor, dar suporte ao governador em uma possível candidatura à Presidência?

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Na medida em que o PMDB se coloca neste momento e com a força com que se coloca, acho que o partido pode ter candidatura própria. Agora, lendo declarações de Michel Temer anteontem (segunda-feira) na Folha de S.Paulo é bem provável que o PMDB e o PT saiam coligados. Acho que o direito de desejar é livre. O Roberto é um político competente, com uma história política forte e poderia vir a ser um candidato forte. Mas não estou dizendo que ele seria o único candidato viável do PMDB.

Como está hoje essa articulação pela candidatura do governador à Presidência?

Não é uma articulação, é uma coisa prematura. Eu estou aqui trabalhando, vendo, ouvindo. Eu estou propondo isso. Quando eu digo a você que eu estou propondo, sou eu. Quem vai avaliar se o trabalho é consistente ou não é o próprio Roberto. A mim cabe tocar o escritório do Paraná e dizer que o Roberto tem experiência e competência para ser uma candidatura alternativa.

Hoje qual é o maior desejo do governador – ser candidato a presidente ou senador?

Se você me perguntar o que nós, que estamos em torno dele, achamos, nós achamos que ele deve ser candidato a presidente da República. Seria para nós uma experiência interessantíssima. E para a biografia dele uma coisa sensacional. Ele tem a sensibilidade política. Entre os irmãos, o Roberto é o candidato, é o governador. Cabe a ele com sua experiência pender para lá ou para cá. Se não for candidato a presidente, será candidato obviamente ao Senado, não tenho dúvida.

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O governador aceitaria ser vice em uma chapa com o PT?

Não sei te responder isso. Ele tem ótimas relações com algumas pessoas do PT. Com o PT como um todo, não. O Roberto tem uma proximidade muito grande com o Lula. Eles se dão bem desde sempre. Acho que quem sabe possa surgir uma composição. O Brasil tem políticos excepcionais. Na verdade, tem de tudo. Tem dono de castelo e muita gente competente.

Como o senhor vê a sucessão ao governo do Paraná? Em entrevista à Gazeta do Povo, o presidente Lula citou três possíveis nomes como candidatos da base de apoio do governo federal – os ministros Paulo Bernardo (Planejamento) e Reinhold Stephanes (Agricultura), além do senador Osmar Dias...

Eu diria que o Lula foi indelicado, para não dizer outra coisa. Foi dizer que apoia um candidato que é um desafeto nosso, que é de oposição ao nosso governo e de oposição a ele sempre. Isso não significa que o Osmar é uma má pessoa. Mas acho que o Lula deveria ter sido mais cuidadoso e não citar esses três nomes. No mínimo, ele poderia ter conversado com o Requião ou com os políticos vinculados ao nosso partido.

No atual mandato do governador, houve duas rupturas claras – uma com Osmar Dias e outra com o prefeito Beto Richa (PSDB). Alguma delas tem volta?

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É a natureza da ruptura que precisa ser entendida. A gente personaliza demais quando fala "o Osmar Dias", "o Beto Richa". Eles representam políticas. Eu poderia dizer a você, até de uma forma mais galhofeira, que a indicação que o Lula fez do Osmar Dias como possível candidato do PT queimou o Osmar. Eu vi isso com uma brincadeira de mau gosto. O que o grupo do Beto Richa pensa sobre isso? O Osmar volta para o ninho ou ele está sendo excluído? Isso foi para levantar o Osmar ou para derrubar? São perguntas interessantes para fazer a eles. Acho que o Requião não experimentou essa ruptura nas relações pessoais. O Osmar foi secretário da Agricultura do Roberto nos anos 90. Um grande secretário. Naquela época chegou a ser pensado como nosso candidato. As relações são civilizadas. Mas como grupos políticos não há costura.