Manuel Zelaya
- 57 anos
- Primogênito de quatro irmãos, filhos de um rico fazendeiro.
- Estudou Engenharia Industrial, mas abandonou o curso para cuidar dos negócios do pai no ramo de madeira e pecuária.
- Filiou-se ao Partido Liberal Hondurenho em 1970. Continua no partido, de direita.
- Foi deputado do parlamento hondurenho por três mandatos seguidos, entre 1985 e 1998. Também foi ministro do Investimento.
- Elegeu-se presidente em 2005. Foi deposto em março de 2009 porque queria mudar a Constituição para permitir a própria reeleição.
- Apesar de representar um partido tradicional da direita, alinhou-se a outros líderes da esquerda latino-americana, como Hugo Chávez.
- Obrigou a imprensa a divulgar ações do governo e chegou a sugerir que os EUA legalizassem as drogas.
Hugo Chávez
- 55 anos
- Segundo de seis filhos de um casal de professores.
- Fez carreira militar e chegou à patente de tenente-coronel.
- Em 1992, tentou realizar um golpe militar contra o presidente Carlos Andrés Pérez. Não conseguiu e acabou preso por dois anos.
- Ao sair da prisão, abandonou a carreira militar para se dedicar à política. Fundou o Movimento V República, em 1997.
- Foi eleito presidente da Venezuela três vezes consecutivas 1999, 2000 (quando dissolveu o parlamento) e 2006.
- É um crítico do capitalismo e dos Estados Unidos.
- Realiza estatizações em diversas áreas da economia.
- Persegue setores da imprensa que fazem críticas ao governo.
- É inimigo declarado do presidente da Colômbia, Alvaro Uribe.
Mahmoud Ahmadinejad
- 53 anos
- Quarto entre sete filhos de um ferreiro.
- Engenheiro civil, com doutorado em Engenharia de Transportes.
- Foi oficial durante a guerra entre o Irã e o Iraque (1980-1988).
- Foi acusado de participação no atentado ao escritor inglês Salman Rushdie, que escreveu Versos Satânicos. Também teria envolvimento no ataque à embaixada norte-americana em Teerã (1979).
- Prefeito de Teerã (2003-2005) e governador geral da Província de Ardebil (1993-1997).
- Venceu as eleições para presidente do Irã em 2005 e 2009.
- Nega o holocausto e prega a destruição do Estado de Israel.
- É líder de um governo que censura a liberdade de expressão, é acusado de assassinar opositores e de fraude no resultado das eleições de 2009.
Brasília - Do meio da América Central, Honduras vai hoje às urnas e divide as atenções e opiniões dos dois pólos do continente. No norte, os Estados Unidos patrocinam a disputa e, no sul, o Brasil contesta a legitimidade das eleições. O episódio é o desfecho de uma sequência recente de distensões entre a política externa dos dois países, que começou na segunda-feira com a passagem do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, por Brasília.
A proteção ao presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, somada à proximidade a Ahmadinejad e ao venezuelano Hugo Chávez, colocam a diplomacia brasileira no fio da navalha e não apenas para os norte-americanos. Para alguns líderes mundiais, aparece um país que promove o diálogo entre nações belicosas. Para outros, as atitudes só servem para avalizar governos antidemocráticos.
Na prática, porém, toda essa movimentação demonstra um desejo histórico do Brasil: ocupar um papel de destaque no cenário mundial. Os exemplos do passado são vários, da Guerra do Paraguai (1864-1880) à tentativa frustrada de fazer parte do conselho de segurança da Liga das Nações organismo criado para manter a segurança do planeta após a 1.ª Guerra Mundial (1914-1918).
"O que o governo Lula quer é pôr em prática esse antigo sonho: participar da arquitetura do poder internacional, falar e ser ouvido", diz o doutor em Ciências Políticas e sociólogo da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Gustavo Biscaia de Lacerda. Para ele, a política externa adotada pela gestão petista esbarra em problemas conceituais.
O principal deles seria a noção de democracia. Segundo Lacerda, o Brasil erra seguidamente quando toma partido ideológico em questões internas de outros países. "A defesa de democracia que o Brasil está fazendo lá fora é ambígua. Zelaya queria rasgar a Constituição de Honduras e nós ficamos do lado dele. Em 2007, deportamos boxeadores cubanos que fugiram da delegação que participava dos Jogos Pan-Americanos e, agora, não queremos mandar Cesare Battisti para Itália."
O sociólogo, no entanto, não é só críticas às ações do governo Lula. Segundo ele, o mundo tem dado mais atenção ao país graças à estabilidade institucional e aos avanços econômicos conquistados nos últimos anos. Além disso, o Brasil teria sim cacife para intermediar o conflito no Oriente Médio; pela tradição pacifista e pela forte colônia de ascendência árabe, que reúne hoje cerca de 15 milhões de brasileiros o dobro da população de Honduras.
A ambição de se transformar em uma potência esbarra nos interesses das potências já estabelecidas. Apesar da "química" entre Lula e Barack Obama, os Estados Unidos mostraram que estão dispostos a impor limites ao enviar uma carta ao governo brasileiro sobre Honduras, na semana passada. A correspondência foi respondida na quinta-feira pelo Palácio do Planalto e gerou protestos.
Articulador da estratégia brasileira em Honduras, o assessor especial da Presidência, Marco Aurélio Garcia, disse que o posicionamento dos Estados Unidos a favor da eleição foi uma "decepção". O Brasil defende o restabelecimento de Zelaya ao poder, ideal compartilhado pela Venezuela e outros países da América Latina.
A simples contraposição aos EUA e a defesa do Brasil como nova via de negociação mundial não fará do país protagonista do xadrez político internacional, de acordo com o historiador da Universidade de Brasília, Virgílio Arraes. "Um país só se transforma em uma potência internacional se consegue se impor em três áreas: militar, cultural e econômica. O Brasil não está à altura das atuais potências em nenhum desses quesitos."
Segundo ele, o verdadeiro poder de influência brasileiro ainda está restrito a países da África e da América Latina. Arraes destaca, contudo, que a diplomacia brasileira tem agido com pragmatismo comercial, especialmente no caso da Venezuela e do Irã. "Aí não é uma questão de quem está no poder, mas uma relação entre Estados."
A discussão sobre erros e acertos também deságua no Congresso. Durante a passagem por Brasília, Ahmadinejad foi recebido por um parlamento dividido. Enquanto os partidos da base aliada ao governo Lula defendiam o diálogo com o iraniano, a oposição protestava.
"Não há pragmatismo que justifique que o nosso país faça confraternização com ditadores", afirma o senador Alvaro Dias (PSDB-PR). O paranaense é um dos principais críticos da proposta de inclusão da Venezuela no Mercosul. O projeto seria votado na semana passada pelo Senado, mas a análise foi adiada para o dia 9 de dezembro.
Para o ex-presidente do Parlamento do Mercosul, deputado federal Dr. Rosinha (PT-PR), é a oposição que tem uma opinião deturpada do caso. "Estamos falando de algo muito mais comercial do que político." Sobre o Irã, o petista disse que Lula demonstrou imparcialidade ao ter recebido também o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, e o primeiro-ministro de Israel, Shimon Peres.
Ele também cita uma conversa recente com o presidente para justificar a postura brasileira. "Certa vez Lula me disse que para defender a paz era necessário conversar com quem quer fazer a guerra." A estratégia pode ainda não ter surtido efeito, mas colocou o Brasil no noticiário internacional para o bem e para o mal.
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