Os negócios estão acabando com a alegria do futebol

Os aficionados pelo contagiante jogo da bola tiveram a oportunidade de experimentar sensações diferentes, algumas até mesmo chocantes, no curso desta semana que se encerra.
O Real Madrid acenou com a possibilidade de pagar até um R$ 1,5 bilhão para ter Neymar na sua equipe; Cristiano Ronaldo foi novamente acusado de sonegar o imposto de renda espanhol, algo em torno de 57 milhões de euros; o dirigente mandachuva do Atlético entrou em conflito com os empresários que representam Clarence Seedorf, vazando informações dos subterrâneos do futebol; o ala esquerdo Thiago Carletto repetiu no Atlético o mesmo discurso, com juras de amor eterno, feito quando assinou contrato com o Coritiba; o Paraná ficou sem o meia Renatinho, seu principal jogador no acesso a série A; o Coritiba enxugou a folha de pagamentos e o desprestigiado Campeonato Paranaense foi rebaixado no seu valor de mercado.
A triste realidade é que os negócios estão acabando com a alegria do futebol.
Não que o futebol esteja perdendo a graça, mas com certeza diminuiu bastante aquele prazer original de o torcedor vibrar com um ídolo, com um time ou simplesmente cultivar a alegria de comemorar a marcação de um gol.
O gol não é mais alegria sincera; é produto.
Um gol se resume a chutar a bola para o fundo das redes e correr para o abraço, não é isso ?
Pode ser que algum dia tenha sido assim. Quem fazia o gol, realmente corria para o abraço – e era aquela festa de ação individual e de alegria coletiva.
Nos últimos tempos o jogador que faz um gol antes de festejar com os companheiros corre em direção a câmera de tv para beijar o escudo do time, mandar beijinhos, desenhar coraçãozinho com as mãos, levantar os braços para o céu ou mesmo destacar o logotipo do patrocinador master na camisa.
O símbolo da pura alegria virou marca de comércio.
Nada contra, afinal vivemos outra época, em que praticamente tudo tem um fundo mercantil.
Apenas vai chocando a ingenuidade pura do torcedor, o encantamento da plasticidade do esporte e a sinceridade dos gestos.
Observem que muita gente passou a ver, na comemoração de um gol, a forma ideal de criar um produto a ser vendido.
O que deveria ser a mais singela e intuitiva comemoração de um gol passa a ser um objeto de consumo.
O que deveria ser uma explosão original de satisfação, passou a ser uma mensagem pessoal ou publicitária para o mercado consumidor.
Não se trata de purismo, mas simplesmente a dura constatação de que o “business” passou a dominar totalmente o ambiente esportivo.
Menos mal que ainda não acabaram com o amadorismo do torcedor na arquibancada, já que as torcidas organizadas são formadas por profissionais que recebem para torcer e vendem os seus produtos em concorrência comercial com a linha de artigos dos próprios clubes.
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