O escritor Nelson de Oliveira, um dos melhores das novas gerações, teve a gentileza de enviar-me um dos seus mais recentes trabalhos. Publico o conto e seu bilhete. Vida longa ao Nelson!

CARREGANDO :)

***********

Olá, Célio. Aí vai o conto, para o Certas Palavras.
Fortuna pertence ao meu mais recente livro, intitulado Ódio sustenido e publicado pela Língua Geral. Estive em Curitiba na semana passada, participando da Feira do Livro. Foi muito bom revisitar a cidade.
Abraço!
Nelson
***********

Publicidade

Fortuna

O primeiro livro que eu comprei hoje está sujo e amarelado. O primeiro livro.
Está.
Sujo e amarelado. Como isso é possível?! Então os livros não são eternos, é isso? Essa é a verdade da existência: livros não duram pra sempre?
Comprei esse meu primeiro livro porque me disseram que seria bom pra mim. Os livros abrem a mente das pessoas, disseram. Não barganhei, não pedi pra parcelarem a dívida. Tirei a carteira e paguei com dinheiro vivo. Meu primeiro livro. Em dinheiro.
Isso já faz o quê, vinte, vinte e cinco anos?
As pessoas têm o hábito de escrever o nome na página de rosto dos livros. Às vezes também anotam a data em que o livro foi adquirido.
Eu não fiz isso e agora não sei mais quando foi que comprei meu primeiro livro. É, esse aí, sujo e amarelado.
É bom que vocês saibam, que não se iludam, com o tempo a bunda murcha, os peitos caem, o pau não levanta mais, as rugas tomam conta do corpo todo e os malditos livros ficam sujos e amarelados.
Comprei meu primeiro livro porque me disseram que livros são fundamentais. Eu não tinha muito dinheiro na época, por isso comprei só esse aí, o mais barato que encontrei.
Ainda hoje não tenho muito dinheiro. Tudo o que ganhei nesses vinte, vinte e cinco anos, eu gastei em livros. Tenho mais de trinta mil livros e só agora me dei conta de que estão todos sujos e amarelados. Metade deles já começou a feder, aposto e ganho.
Já estão fedendo há muito tempo e só eu não percebi isso.
Me disseram que livros são muito, muito importantes, por isso gastei todo o meu dinheiro comprando livros. Minha mulher me deixou, levou as crianças com ela, isso foi ótimo porque assim sobra mais espaço para os livros.
Só não me disseram que. Ninguém me avisou. Não me disseram que. Sujos e amarelados.
E mais fedidos do que gato morto.
Depois do meu primeiro livro vieram mais trinta mil. Gastei todo o meu salário neles. Trinta mil não é muita coisa. Trezentos milhões sim me deixam de pau duro.
Olhem lá. Já viram construção mais imponente?
Observem a solidez da estrutura, a elegância do pórtico, a leveza das colunas. Viajei seis mil quilômetros só pra conhecer esse prédio.
É a Biblioteca, né, a Biblioteca Nacional, não é? Ah, pára com isso, é sim. Eu tenho muitas fotos.
Mais de trezentos milhões de livros, não sei como as quadrilhas desta cidade ainda não levaram tudo. Bandido não pensa. Essa fortuna dando sopa e os babacas assaltando banco, traficando droga.
Eu trouxe duas granadas, seis bananas de dinamite, uma escopeta e um rifle AR 15. Trouxe tudo isso mas vim sozinho. Não gosto de dividir nada com ninguém, muito menos livro.
Olha só que beleza, que riqueza. Nem a Casa da Moeda guarda fortuna maior do que essa. Trezentos milhões. Assim não há cobiça que não dê as caras.
Isso era o que eu imaginava até hoje de manhã.
Foi quando vi que o meu primeiro livro. Foi hoje de manhã, no quarto do hotel.
No quarto do hotelzinho sujo e amarelado, de paredes sujas e amareladas, de cortinas sujas e amareladas, o café fede, o pãozinho fede, a manteiga suja e amarelada fede.
Idiotas.
Trezentos milhões de livros.
Será que toda essa gente que dá o sangue aí dentro não sabe? Será que não percebem?
Olha só meu rosto, olha só minha pele. Fiquei sujo e amarelado, estou fedendo mais do que gato morto. Trinta mil livros não me salvaram do mofo. Trinta mil livros que comprei com o suor do meu rosto.
Vocês aí, palhaços. Deixem de ser otários, pra que esse nariz empinado? Trinta mil livros não me salvaram do câncer, do derrame, do enfarto agudo do miocárdio. Não me salvaram do mau hálito, do chulé, da frieira.
Estão vendo este rosto sujo e amarelado, estas hemorróidas? Acordem para a realidade. Trezentos milhões de livros não vão salvar o rabo erudito de ninguém.

Nelson de Oliveira nasceu em 1966, em Guaíra, SP. Escritor e mestre em Letras pela USP, publicou Naquela época tínhamos um gato (contos, Cia. das Letras, 1998), Subsolo infinito (romance, Cia. das Letras, 2000), O filho do Crucificado (contos, Ateliê, 2001, também lançado no México), A maldição do macho (romance, Record, 2002, publicado também em Portugal), Verdades provisórias (ensaios, Escrituras, 2003) e O oitavo dia da semana (romance, Travessa dos Editores, 2005), entre outros. Em 2001 organizou a antologia Geração 90: manuscritos de computador e em 2003, Geração 90: os transgressores, com os melhores prosadores brasileiros surgidos no final do século XX, ambos para a editora Boitempo. Ainda em 2003 editou com Marcelino Freire o número único da revista PS:SP. Colabora regularmente com o jornal Rascunho (PR) e com o caderno Idéias & Livros, do Jornal do Brasil (RJ). Dos prêmios que recebeu destacam-se o Casa de las Américas (1995), o da Fundação Cultural da Bahia (1996) e duas vezes o da APCA (2001 e 2003).