| Foto: Chamila Karunarathn /EFE
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Nos últimos dias, o Senegal testemunhou um movimento inédito de protesto, onde grande parte da imprensa nacional decidiu entrar em blackout, paralisando a publicação de jornais, além de transmissões de rádio e televisão. Este ato coletivo de resistência foi uma resposta direta às crescentes pressões e ameaças do governo do presidente Bassirou Diomaye Faye contra a liberdade de imprensa, uma situação que coloca em xeque a sobrevivência da mídia independente no país.

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O estopim para esse movimento foi uma série de medidas drásticas impostas pelo governo, que incluem o congelamento de contas bancárias de veículos de comunicação, a apreensão de equipamentos e a interrupção unilateral de contratos de publicidade estatal. Essas ações foram oficialmente justificadas como parte de uma campanha contra a corrupção e para garantir o cumprimento das obrigações fiscais e trabalhistas. No entanto, para os principais representantes da mídia senegalesa, essas justificativas são apenas um pretexto para silenciar vozes críticas e impor um controle autoritário sobre o conteúdo jornalístico.

Mamadou Ibra Kane, presidente do Conselho Senegalês de Distribuidores e Editores de Imprensa (CDEPS), destacou a gravidade da situação, afirmando que essas medidas colocam as empresas de mídia à beira da falência. "As condições impostas pelo governo são insustentáveis para a imprensa livre. Estão nos asfixiando financeiramente para que deixemos de reportar a verdade ao público", declarou Kane, ecoando o sentimento de muitos jornalistas e editores que agora enfrentam a incerteza sobre o futuro de suas operações.

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Entre os veículos que aderiram ao blackout estão alguns dos maiores e mais influentes órgãos de mídia do Senegal, como o jornal Le Quotidien, o canal de televisão Walfadjri e a rádio Zik FM. Esses meios decidiram parar suas operações como uma forma de demonstrar a seriedade da crise que enfrentam. Outros veículos, no entanto, optaram por não aderir ao protesto. É o caso da televisão estatal RTS e de alguns jornais menores que têm uma relação mais próxima com o governo e, por isso, evitaram se posicionar contra as medidas governamentais.

A situação atraiu a atenção internacional, especialmente dos Repórteres sem Fronteiras (RSF), uma das principais organizações globais de defesa da liberdade de imprensa. A RSF expressou profunda preocupação com a deterioração do ambiente para o jornalismo no Senegal, alertando que o país, que historicamente manteve uma posição relativamente favorável à liberdade de imprensa, agora corre o risco de se alinhar a outras nações africanas conhecidas pela repressão à mídia.

Ainda bem que é só no Senegal, não no Brasil

Em um comunicado, a RSF exortou o presidente Faye a reconsiderar suas ações e a abrir um diálogo com os representantes da mídia para restabelecer um ambiente de respeito aos direitos fundamentais de expressão. "O Senegal está em uma encruzilhada. O presidente Faye tem a oportunidade de garantir que o país continue sendo um farol de liberdade de imprensa na região ou de conduzi-lo a um caminho de repressão e censura", alertou a organização.

No entanto, as respostas do governo até agora têm sido ambíguas. Enquanto o presidente Faye defende que as medidas são necessárias para combater a corrupção e melhorar a transparência, muitos observadores veem isso como uma cortina de fumaça para consolidar o poder e eliminar qualquer forma de oposição. Em sua defesa, Faye argumentou que as ações são parte de uma agenda maior de reformas necessárias para "reorganizar" o setor midiático e garantir que ele funcione dentro das normas legais. Contudo, há críticas de que o governo utiliza essas "reformas" como uma arma para enfraquecer as instituições democráticas e calar jornalistas independentes.

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Essa escalada de tensões no Senegal ilustra um fenômeno mais amplo que afeta diversas nações onde a liberdade de imprensa é vista como uma ameaça ao poder estabelecido. A situação no Senegal é um lembrete sombrio de como a liberdade de expressão, a mãe de todas as liberdades, pode ser facilmente erodida por governos que buscam evitar escrutínio público.

No contexto global, onde a imprensa enfrenta desafios contínuos, o caso senegalês serve como um alerta para a necessidade de vigilância constante e apoio à imprensa livre. O blackout de mídia no Senegal é um grito de socorro, um apelo para que o mundo preste atenção e aja antes que seja tarde demais.

Ainda bem que é só no Senegal, não no Brasil.