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O sucesso de público e de critica do filme “As Aventuras de Pi”, de Ang Lee, que arrebatou também alguns Oscars, despertou uma daquelas “ciber-iras”, ou revoltas online, que de tempos em tempos enchem a internet de ranço e rancor. No caso, o autor que inspirou o roteiro Yann Martel, vem sido acusado de plagiar a história do escritor gaúcho Moacyr Scliar (mais precisamente do livro “Max e os Felinos”). Em ambos, garotos enfrentam a desventura de viver, junto a gatos selvagens.

Discursos acalorados e até ofensas são postadas em entrevistas de Martel no Youtube – há também aqueles “Policarpos Quaresmas” modernos que acreditam que o Brasil foi colocado de lado “novamente”. Scliar, um ano antes da sua morte, foi elegante e sublime gravar uma entrevista relativizando o caso.

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O debate é rico, sem dúvida, mas cresce ainda mais e se pensarmos que, por trás da questão da autoria, há um sociedade com infinitos veios virtuais criando conteúdo coletivamente e, em algumas vezes, meramente reproduzindo ou mencionando outros. A polêmica Martel/Scliar não é anacrônica; é fundamental para entender como os processos, ideias e mesmo a arte são criados no mundo hoje. O fel que transborda pela internet tem razão de ser. Como educador, me preocupa que este assunto esteja tão longe da escola quanto debate, mas tão perto quanto realidade. Há vinte anos, tirar fotocópias de livros e “colar” nas provas parecem atitudes simplórias se pensarmos na questão do plágio hoje.

Mergulhar a fundo na questão significa debater o “crowdsourcing” e a inteligência coletiva, compreender o “Control C+ Control V”, colocar a Wikipédia em xeque e perceber as nuances possíveis em licenças como o Creative Commons. Em suma, redefinir o próprio conceito de “autoria” faz-se necessário. As experiências educativas que mais conseguem colocar o estudante frente a frente com essas e outras questões contemporâneas, fazem dele mesmo, o jovem, um produtor e criador. Não apenas estimulam o debate, mas estimulam o aluno a produzir e questionar seus métodos.

Os projetos que envolvem desenvolvimento de comunicação por jovens, como revistas e documentários, colocam a “autoria” num outro patamar de debate – o texto não morre na gaveta da escola e a colagem não vai apenas para o mural da sala – são publicadas para a sociedade. Isso acontece porque, quando bem feitas, os trabalhos com comunicação não tratam de uma simulação; lidar com a polêmica Martel/Scliar torna-se então inevitável.

Quando era adolescente, fiquei indignado com o plágio que o cantor britânico Rod Stewart fizera da canção “Taj Mahal”, de Jorge Benjor, após umas férias no Brasil. Tentei levar esse debate a uma aula, mas não reverberou. Hoje não é diferente. “Autoria” e “criação” são ainda distantes, salvo as exceções mencionadas, do cotidiano de uma escola “vouyeurista” e estéril.

Dentro das salas de aula, Scliar é sinônimo apenas de um grande escritor e Martel, um predestinado ao Oscar; questões mais profundas, continuam sendo vistas pela janela, do lado de fora, no lugar onde a vida pulsa mais forte.

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>> Alexandre Le Voci Sayad é jornalista e educador. Desenvolve projetos interdisciplinares com foco em educação para escolas, governos e empresas. É autor do livro Idade Mídia: A Comunicação Reinventada na Escola, publicado pela Editora Aleph.

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