“Era o respeito o que mais inspirava aos seus alunos, e foi por ele que conquistou o prestígio para o seu colégio. Prestígio sustentado pela seriedade de seus atestados, que, perante as mesas de exame, eram recomendações e equivaliam a provações antecipadas.” (Constâncio Alves, sobre Ernesto Carneiro Ribeiro)
Lembro-me como se fosse hoje de meu chamado para ser professor. Após dez anos trabalhando com Eletrônica e Tecnologia da Informação, a leitura de um livro mudaria tudo. Thomas Merton, monge trapista e poeta de espiritualidade cativante, ao narrar sua trajetória acadêmica em sua extraordinária autobiografia, A Montanha dos Sete Patamares, despertou a minha verdadeira vocação. Talvez tenha sido num trecho como esse, no qual descreve seus planos de abandonar uma carreira financeiramente rentável, para algo, digamos menos estressante:
“A experiência do ano anterior, com o súbito colapso de toda a minha energia física e a diminuição do antigo vigor de minhas ambições universais, me obrigara a pôr de lado como coisa tão trabalhosa quanto incerta a ideia do jornalismo. Minha matrícula na escola graduada representava o primeiro passo remoto de retirada da luta pelo dinheiro e pela fama, da vida ativa e mundana do conflito e da competição. Pelo menos eu viria a ser professor e viveria o resto da vida em relativa paz no campus dum colégio, lendo e escrevendo livros.”
Ou quando, já lecionando – antes de abandonar tudo e adentrar o mosteiro – se deu conta do poder de suas palavras numa sala de aula:
“Foi também nessa temporada que passei a dar aula noturna três vezes por semana, ensinando composição inglesa numa das salas da Escola Comercial, em Colúmbia. Como em todas as classes do Curso de Extensão, essa era uma mistura de vários teores humanos […]. Certa vez, depois de haver eu insistido que eles deviam se apegar a temas tangíveis e concretos descrevendo lugares e coisas, um irlandês chamado Finegan, que sempre se sentava com ar deslumbrado mas sem grande demonstração de eficiência num dos últimos lugares ao fundo, de repente irrompeu com tal fecundidade sobre pormenores mínimos e sem importância, que impossível foi dominá-lo. Meteu-se a descrever fábricas de sapatos a ponto duma pessoa se sentir enterrada debaixo de cinquenta toneladas de maquinismos. E então me dei conta, com assombro e temor, que os professores têm o dom misterioso e letal de desencadear forças psicológicas até então agrilhoadas na mente dos jovens. A rapidez e o entusiasmo feliz com que respondiam a sugestões e fórmulas, mas respondendo errado, bastavam para fazer uma pessoa fugir e procurar viver nas brenhas.”
O Estado falhou e continua falhando com eles e os condenando, dia após dia, à total vulnerabilidade, a uma condição que os deixará sempre à margem
Não sei exatamente onde a coisa se deu. Só sei que esse livro, como se diz, explodiu a minha cabeça e fez com que eu compreendesse, perfeita e inequivocamente, qual seria o meu caminho profissional a partir dali. Lendo a primeira parte do livro, na qual Merton trata de sua formação e de suas pretensões acadêmicas, foi como se uma voz, vinda diretamente do Céu, me dissesse: “esse será o seu caminho”. E nos dez anos seguintes, após um surto inicial pelo impacto da obra de Merton – que já descrevi em outra ocasião aqui, nesta Gazeta do Povo –, construí minha nova carreira, voltando à faculdade após mais de dez anos, me graduando em Filosofia e aguardando o momento que fosse propício para a mudança, que se deu em 2014, quando decidi sair da empresa em que trabalhava havia onze anos, abandonando um cargo de confiança, um salário altíssimo para a época e uma carreira de vinte anos em TI.
Minha entrada no ensino público foi absolutamente circunstancial. Tudo o que eu queria era lecionar, não importava onde. Entretanto, no final de 2013, ao procurar por uma vaga em alguma escola, vi que as inscrições do concurso para professor no Estado de São Paulo estavam abertas. Me inscrevi, fui aprovado e comecei a lecionar no início do ano seguinte. E também a fazer mestrado, no qual me graduei um ano e meio depois.
Não tive grandes dificuldades para me adaptar à sala de aula, uma vez que, por ser protestante, já havia não só dado aulas na igreja, mas também proferido sermões muitas vezes. Sem contar que jamais tive dificuldades para lidar com o público. E penso que essas características são exatamente evidências de minha vocação para a docência e para preleções. Uma pequena apreensão, ao final do primeiro ano letivo, por não saber se tinha “funcionado”, foi dissipada por alguns alunos que, encontrando comigo nos corredores da escola na última semana de aula, perguntaram: “o senhor dará aula pra gente no ano que vem?” E, diante de minha resposta afirmativa, eles reagiram com um “eba!” efusivo. Mais gratificante, impossível.
Pois bem. Mas agora, após dez anos de docência no ensino público, tomei uma das decisões mais difíceis (e tristes) da minha vida: pedi exoneração de meu cargo e deixo, por ora, a atividade que aprendi a amar de todo o meu coração: lecionar para adolescentes; a insubstituível sala de aula. A sensação é de derrota. Não por conta de minha posição como professor, pois sei do que sou capaz, mas de ter sido vencido pelo Sistema, de me ver impossibilitado de cumprir a minha vocação. Já escrevi muitos artigos nesta coluna sobre os problemas da educação brasileira, mas eles foram se avolumando, nos últimos anos, de tal forma que não vejo outra saída, a fim, até, de preservar a minha saúde.
Vi e vivi muitas coisas nesses dez anos; tive momentos maravilhosos, alunos dedicados e inesquecíveis, e fiz amigos para a vida toda. Dei muitas aulas que me deram uma profunda sensação de dever cumprido. Mas foi também onde, por exemplo, conheci a pior pessoa com a qual trabalhei nesses quase trinta anos de carreira profissional. Uma pessoa que encobria a incompetência (e sabe-se lá o que mais) com maldades inacreditáveis, a troco de nada; foi onde vi uma burocracia gigantescamente sufocante e inócua; foi onde vi um sistema de educação no qual o aluno é o que menos importa; na verdade é um empecilho para experimentos pedagógicos e sociais delirantes – como o Novo Ensino Médio, do qual também tratei. A última pá de cal foi a plataformização da educação e a retirada do ensino de Filosofia do currículo do Estado de SP, me empurrando para os infrutíferos Itinerários Formativos, uma excrescência só possível num sistema que já faliu. Portanto, é isso, fui vencido.
Saio com uma profunda dor no coração, pois sei que esses alunos, do ensino público, são os que mais precisam – ainda que não entendam ou, atualmente, ignorem devido ao vício em redes sociais e a total apatia que os assola. O Estado falhou e continua falhando com eles e os condenando, dia após dia, à total vulnerabilidade, a uma condição que os deixará sempre à margem. Alguns até perceberão após os problemas começarem, de fato, a se avolumar; outros – creio que, na atual conjuntura, muitos – serão incluídos nas tristíssimas estatísticas dos nem-nem. É a falência da educação. É a falência do país.
Meu trabalho continua. Um dia, quem sabe, volto à sala de aula, pois meu amor por ela jamais esfriará, uma vez que foi exatamente para isso que nasci. No mais, sigamos, com a graça de Deus.