A deputada federal Sâmia Bomfim, que criticou fala da cantora e pastora Baby do Brasil.| Foto: Vinicius Loures/Câmara dos Deputados
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“E, quando chegaram ao lugar chamado a Caveira, ali o crucificaram, e aos malfeitores, um à direita e outro à esquerda. E dizia Jesus: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem. E, repartindo as suas vestes, lançaram sortes.” (Lucas 23,33-34)

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Recentemente, durante um culto evangélico, a pastora e cantora Baby do Brasil, famosíssima não só por sua bem-sucedida carreira musical (como Baby Consuelo), mas por seu jeito, digamos, todo particular de expressar sua fé, não raro se envolvendo em controvérsias, durante um período de oração conclamou os presentes ao perdão. Entretanto, o fez de maneira radical – e escandalosa, para muitos. Disse ela: “Perdoa tudo o que você tiver em seu coração hoje, neste lugar. Perdoa. Se teve abuso sexual, perdoa. Se foi da família, perdoa. Se é briga de família, mãe, filho, pai, perdoa”.

A deputada Sâmia Bomfim, do PSol – de onde mais poderia ser? –, acionou o Ministério Público para que investigue Baby do Brasil por incitação ao crime e condescendência criminosa, previstos nos artigos 349 e 286 do Código Penal, respectivamente. Depois, correu para as redes sociais para vociferar sua indignação, dizendo:

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“O pedido da cantora Baby do Brasil, em meio a um culto, para que vítimas de violência sexual perdoem seus abusadores, é inaceitável e criminoso. Vivemos num país em que 9 estupros são registrados por hora, e 61% das vítimas têm menos de 14 anos. A maioria dos crimes é cometida dentro de casa, por familiares ou pessoas próximas. As denúncias muitas das vezes não acontecem justamente por ameaças, ou por serem desincentivadas pelas pessoas ao redor. Isso é parte da cultura do estupro que nos assola! [...]. Baby flagrantemente cometeu incitação ao crime e condescendência criminosa, pois reforçou uma cultura de silenciamento e impunidade, incentivando que crimes de violência sexual fiquem sem a devida responsabilização e favorecendo aqueles que o cometeram.” (grifos meus)

“Cultura de estupro” é um termo vazio, inventado para generalizar um comportamento reprovável como se fosse não só sedimentado na sociedade, mas aceito por ela

O sensacionalismo de Sâmia precisa ser analisado. Primeiro, porque “cultura de estupro” é um termo vazio, inventado para generalizar um comportamento reprovável como se fosse não só sedimentado na sociedade, mas aceito por ela. Segundo matéria do site Galileu, “Cultura do Estupro” [sic, pois eles insistem em escrever a preposição errado] é um “termo [que] foi cunhado na década de 1970 por feministas americanas e, de acordo com o Centro das Mulheres da Universidade Marshall, nos Estados Unidos, é utilizado para descrever um ambiente no qual o estupro é predominante e no qual a violência sexual contra as mulheres é normalizada na mídia e na cultura popular” (grifos meus).

Bem, para começar, o que significa dizer que é “predominante”? Se predominar é estar em maior evidência em comparação a algo, eles querem dizer que estupros são mais frequentes que relações consensuais? E dizer que tal cultura é “normalizada” significa que as pessoas não mais se indignam com casos de violência contra a mulher? Tais absurdos retóricos não precisam de maiores explicações, pois a forçação de barra é comum no discurso militante. Não existe “cultura de estupro”; o que existe – é forçoso admitir – é uma cultura de sujeição feminina que torna a posição da mulher mais vulnerável. E não precisamos ser esquerdistas para percebermos isso; basta olhar os casos de violência contra a mulher, que abundam em nossa sociedade. As causas podem até ser multifatoriais, mas os fatos, extraída a retórica militante, não devem ser ignorados.

Talvez um dos poucos aspectos culturais em que a objetificação da mulher e o abuso sexual seja tolerado é no funk, que, curiosamente, é defendido com unhas e dentes pelos parlamentares do PSol: além de terem criado a Frente Parlamentar do Funk, eles aprovaram, através de seu deputado Chico Alencar, uma lei que reconhece o funk como manifestação cultural brasileira. Não podemos generalizar, mas não é difícil encontrar uma letra de funk que considere a mulher um mero objeto sexual. Ou seja, a hipocrisia reina no Partido Socialismo e Liberdade.

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Sâmia também diz que Baby do Brasil “flagrantemente cometeu incitação ao crime e condescendência criminosa”. Como assim, flagrantemente?  Algo flagrante é aquilo que não pode ser contestado, que é evidente. Algum desavisado, ao ver uma sessão de quiropraxia em praça pública, sem saber do que se trata, pode dizer que o quiroprata está flagrantemente torturando o paciente? Sim, pois há coisas que exigem contexto. Em que contexto Baby do Brasil pede que as pessoas perdoem abusadores? Mais do que isso: o que significa perdoar naquele contexto?

O perdão é uma das principais atitudes cristãs, fundamentada no fato de que nós mesmos fomos perdoados por Deus por ação de sua misericórdia. Ao final da oração do Pai Nosso, Jesus diz: “Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celestial vos perdoará a vós; se, porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai vos não perdoará as vossas ofensas” (Mateus 6,14-15). E o ministério de Jesus é carregado de exemplos de perdão não só de pecados de forma genérica, de ofensas, mas de violência mesmo, conforme a epígrafe, no ato de sua tortura e crucificação. O perdão é um dom divino e sua virtude, parafraseando G.K. Chesterton, está em, exatamente, perdoar o imperdoável, e não somente aquilo que nós julgamos digno de perdão.

Ou seja, Baby do Brasil disse o que disse num contexto religioso, cristão, no qual a atitude de perdoar deve ser, sim, profunda e integral. O eminente teólogo protestante Karl Barth, em seu estudo do Pai Nosso (Fonte Editorial), nos diz:

“Há uma espécie de condição prévia que colocamos a nós mesmos para obter o perdão de Deus? Não. É um critério necessário para compreender o perdão de Deus. Pois, que seja quem for, sabe que está entregue à misericórdia de Deus, que ele não pode existir sem o perdão divino; quem tenha vivido uma tal experiência não pode fazer de outro modo, a não ser perdoar aos outros, àqueles que o tem ofendido (somos todos ofensores, devedores uns dos outros, e o somos cada dia). E mesmo quando as dívidas de nossos ofensores nos parecem muito grandes, elas são, sempre, infinitamente mais leves que as nossas para com Deus. Nós, que somos tão grandes devedores, como poderemos esperar o perdão divino para nós, se não queremos fazer, nós mesmos, esta pequena coisa: perdoar aqueles que nos têm ofendido? A esperança que se tem para si mesmo abre necessariamente o coração, o sentimento, o julgamento a respeito dos outros. Isto não é um mérito, um esforço moral ou uma espécie de virtude, saber perdoar.”

Óbvio que se trata de algo dificílimo, ainda mais diante de um crime tão hediondo quanto o abuso sexual. Mas a hediondez quem imprime a determinados crimes/pecados somos nós. A Deus, todo pecado é uma ofensa infinita, uma vez que tem origem em nossa natureza, que está em oposição a Deus desde a Queda. Se o leitor não é cristão, isso, obviamente, não precisa fazer sentido para você. Entretanto, caso professe a mesma fé que eu – e Baby do Brasil –, é sua obrigação compreender isso. Não é uma escolha, é uma condição para que sejamos, nós mesmos, perdoados.

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Perdoar os pecados de alguém não significa que, caso tenha cometido um crime, o pecador não deva ser responsabilizado perante as leis humanas

C.S. Lewis diz, em seu ensaio “Sobre o Perdão” (em O Peso de Glória), algo desafiador: “O verdadeiro perdão significa olhar firmemente para o pecado, para o pecado que ficou sobrando sem nenhuma desculpa, depois que todas as concessões foram feitas, e vendo isso em toda sua repulsa, sujeira, maldade e malícia, ainda assim ser completamente reconciliado com a pessoa que o tiver praticado. Isso, e somente isso, é perdão, e podemos sempre ter da parte de Deus, se o pedirmos”. Mas emenda que “perdoar não significa desculpar”, pois, ao pedir que as pessoas “perdoem alguém que os tenha traído ou intimidado”, você não “está tentando sugerir que não aconteceu realmente nenhuma traição ou intimidação”. Isso parece óbvio, uma vez que, se “isso fosse assim, não haveria nada para perdoar”.

E isso nos leva a outro absurdo da acusação de Sâmia Bomfim. Ela afirmou que o pedido de Baby do Brasil “reforçou uma cultura de silenciamento e impunidade, incentivando que crimes de violência sexual fiquem sem a devida responsabilização e favorecendo aqueles que o cometeram”. Isso só pode ser dito por quem ignora completamente não só o sentido espiritual do perdão de pecados, mas o próprio evangelho de Cristo. Perdoar os pecados de alguém não significa que, caso tenha cometido um crime, o pecador não deva ser responsabilizado perante as leis humanas. É Lewis quem, novamente, nos ajuda. Em Cristianismo Puro e Simples, ele afirma:

“Será que amar os nossos inimigos significa deixar de puni-los? Não, pois amar a mim mesmo também não significa que eu não devesse me submeter à punição – ou mesmo à morte. Se você cometesse um assassinato, a coisa certa a fazer, se você for um cristão, seria entregar-se à polícia para ser enforcado. Por isso, em minha opinião, é perfeitamente certo para um juiz cristão sentenciar um homem à morte; ou para um soldado cristão matar um inimigo. Sempre pensei assim, desde que eu me tornei cristão, e muito antes da guerra, e continuo pensando assim, mesmo agora que estamos em paz. Não adianta ficar citando: ʻNão matarásʼ. Há duas palavras gregas, a palavra comum para matar e a palavra assassinar, e, quando Cristo cita esse mandamento, ele usa a palavra para assassinato nos três relatos: o de Mateus, o de Marcos e o de Lucas. E me disseram que existe a mesma distinção no hebraico. Nem todo ato de matar é um assassinato, da mesma forma que nem toda relação sexual é um adultério.”

Sâmia Bomfim, ao tentar imputar um crime a Baby do Brasil, deveria, a meu ver, ser processada por intolerância religiosa e falsa imputação de crime

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Ou seja, Sâmia Bomfim, ao tentar imputar um crime a Baby do Brasil, deveria, a meu ver, ser processada por intolerância religiosa e falsa imputação de crime, uma vez que desconsidera completamente aquilo que é um dever cristão intimamente ligado à sua devoção. Mas não será. Sabe por quê? Porque Baby do Brasil, por mais que se discorde muitas vezes de sua teologia, mais uma vez demonstrou a seriedade com que encara sua fé: gravou um vídeo não pedindo desculpas, mas se defendendo das acusações e reafirmando a necessidade de perdão para um cristão. E concluiu, nobre e cristãmente:

“É claro que eu jamais defenderia abusadores de qualquer espécie, pois eu sou contra qualquer tipo de abuso! Agora todos podem comprovar pela minha própria boca, sobre o que eu disse em um culto, a respeito do perdão espiritual e profundo, que nos liberta dos gatilhos emocionais e traumas, que carregamos por consequência dos mesmos [...]. Entrego nas mãos de Deus todas as acusações e todos os cortes de vídeos, falas e etc., descontextualizados, que possam confundir ou causar interpretações equivocadas ou distorcidas. E a todos, que não haviam entendido a minha fala, e me atacaram, sinceramente, estão perdoados em nome de Jesus.”

Amém, Baby. Amém.

Infográficos Gazeta do Povo[Clique para ampliar]