Apesar do orgulho que os produtores rurais têm em responder por quase 30% dos empregos, um terço do PIB e 52% da nossa balança comercial, resultados como esses vêm com muito esforço. Especialmente quando considerada a atual infraestrutura logística do país.
Gargalos enormes desafiam diariamente o trabalho no campo. Problemas de armazenagem da produção, transporte e escoamento, além da baixa diversificação dos modais, são apenas algumas das muitas necessidades enfrentadas pelo setor.
O primeiro grande obstáculo é o armazenamento da safra. Não existe, no país, o hábito do pequeno ou médio agricultor construir silos na própria propriedade. Normalmente, essa tarefa cabe às cooperativas ou cerealistas.
Em uma visita ao Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), tive a oportunidade de ouvir a seguinte crítica: “Como vocês esperam liderar a produção mundial de alimentos se nem sequer possuem galpões para armazenar os grãos?”
Não existe, no país, o hábito do pequeno ou médio agricultor construir silos na própria propriedade
Essa deficiência é grave. Não é raro ver filas de caminhões à espera do embarque nas imediações dos portos, algo que compromete a qualidade e a viabilidade das nossas exportações. Boa parte da safra nacional fica estocada nesses veículos.
E quando acontece um incidente como o que paralisou a Rodovia Anchieta, em São Paulo, na última semana, e interrompeu o acesso ao Porto de Santos – o principal do país – por 48 horas? Quais são as alternativas disponíveis?
A falta de armazenagem também deixa os produtores reféns dos preços praticados pelo mercado no momento em que os grãos deixam a propriedade rural. Isso gera uma exposição desnecessária à volatilidade e à especulação, além de aumentar o número de caminhões nas estradas, que complicam ainda mais o escoamento da safra.
É fundamental que o próximo Plano Safra amplie o estímulo ao Programa para Construção de Armazéns (PCA). Com crédito mais barato e incentivos governamentais, seria possível desenvolver essa infraestrutura tão necessária e que pode beneficiar diretamente a atividade agropecuária.
Outra necessidade evidente é a diversificação dos modais logísticos. Existe um excesso de caminhões nas estradas e poucos projetos concluídos que escoem a safra por ferrovias e hidrovias. Além disso, o valor do frete praticamente dobrou neste ano e deixou o custo de produção quase inviável.
Alguns exemplos importantes são: a Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol), de 1.527 km, entre o Tocantins e o Porto de Ilhéus (BA); a Ferrovia Norte-Sul, para ligar o Porto de Itaqui (MA) a Rio Grande (RS), com mais de 4 mil quilômetros; a Transnordestina, de 1.753 km, do Piauí ao Porto de Suape (PE); e a Ferrogrão, com extensão de 933 km, entre Sinop (MT) e o Porto de Miritituba (PA).
Esses projetos, entretanto, ou operam parcialmente ou nem sequer cumprem sua função devido à falta de recursos financeiros, entraves burocráticos nos licenciamentos ambientais e falta de prioridade do governo federal.
O atual governo não compreendeu ou não direcionou esforços suficientes para solucionar os desafios logísticos enfrentados pelo setor agropecuário
Em um país de dimensões continentais e vocacionado para a produção de alimentos, é fundamental desenvolver e incentivar projetos estruturantes voltados à superação desses gargalos logísticos. Por isso, a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) trabalha em parceria técnica com o Instituto Pensar Agro (IPA) para definir as principais necessidades de infraestrutura e quais obras devem receber prioridade.
Seria fundamental contar também com a presença ativa do governo federal nessas iniciativas, seja na busca por investimentos ou na melhoria dos projetos.
Infelizmente, a atual gestão não compreendeu ou não direcionou esforços suficientes para solucionar os desafios logísticos enfrentados pelo setor. Até hoje, o governo nem sequer respondeu às 20 propostas feitas pelo IPA, algumas delas relacionadas diretamente à logística e à solução da crise nos preços dos alimentos. Isso é lamentável.