... abre as asas sobre nós! Das lutas, na tempestade, dá que ouçamos tua voz.” São versos do Hino da Proclamação da República do Brasil. Depois virou samba-enredo vencedor do carnaval de 1989, até hoje lembrado como “histórico” e “antológico”, considerado por muitos como o melhor de todos os tempos. Apoteose de brilho e cores, espetáculo da alegria. Antes disso, em 1965, para criticar o governo militar, Flávio Rangel e Millôr Fernandes escreveram a peça Liberdade, liberdade, interpretada por Paulo Autran e Nara Leão no Teatro Arena de São Paulo. Cenas inteligentes, música, jogos ácidos, espetáculo do humor. No seu prólogo breve, o velho Millôr dizia: “Não tenho procurado outra coisa na vida senão ser livre. Livre das pressões terríveis da vida econômica, livre das pressões terríveis dos conflitos humanos, livre para o exercício total da vida física e mental, livre das ideias feitas e mastigadas”. E terminava dizendo que a liberdade que pudera conceber na peça era uma liberdade pequena, sim, modesta como a capacidade dos autores, e não grande, enorme como aquela liberdade triunfante que está em Nova York. Além de tantos versos e lágrimas no decorrer dos séculos, então, parece que a liberdade mereceu um monumento, uma estátua gigante de braço em riste, para iluminar os caminhos de um país. Que liberdade é essa, que todos amam e desejam, louvam e defendem, e que ninguém seria capaz, em sã consciência, de dizer que é má e que não a deseja? Onde é que se a pratica?
Ah, fala-se muito em liberdade! Grita-se por ela nas praças, nos discursos, nas redes sociais. Deseja-se ser dono das próprias escolhas, senhor da própria história. Mas quantas vezes, no cotidiano, não fazemos justamente o contrário? Clamamos por autonomia, e, no entanto, depositamos nas mãos alheias a responsabilidade por nossas decisões. Queremos ser livres, mas imploramos que alguém nos diga o que fazer. Há, nesse desejo contraditório, um traço revelador da nossa imaturidade.
Não é raro, sobretudo na educação dos filhos, buscarmos receitas prontas. Ansiamos por métodos infalíveis: passo um, passo dois, passo três – e tudo se resolverá. Queremos saber, com exatidão, o que fazer para a criança dormir, para que coma direito, para que obedeça. Desejamos fórmulas, atalhos, garantias. E nos decepcionamos quando, mesmo seguindo tudo à risca, os resultados não aparecem. Esquecemos, porém, que estamos lidando com seres humanos, e que a vida, com sua riqueza de variáveis, resiste às fórmulas, a “ideias feitas e mastigadas”.
Clamamos por autonomia, e, no entanto, depositamos nas mãos alheias a responsabilidade por nossas decisões. Queremos ser livres, mas imploramos que alguém nos diga o que fazer
Cada filho é único. Cada lar é único. Cada circunstância é irrepetível. Não há planilha capaz de captar a complexidade da dinâmica familiar, nem cartilha que abarque todas as nuances da formação de um ser humano. Não há receita de bolo que eduque uma alma. E é justamente por isso que a liberdade nos é dada – e, com ela, a responsabilidade que a acompanha. Educar exige maturidade: a coragem de tomar decisões ponderadas e assumir suas consequências. Exige formação: conhecimento profundo sobre o ser humano, sobre as fases da infância, sobre os hábitos e as inclinações que nos movem.
Essa formação não se adquire da noite para o dia. Ela é fruto de escuta, reflexão, de confronto com a realidade. Um processo de crescimento que exige humildade para reconhecer a própria ignorância e disposição para amadurecer. Por isso, é natural que, no início, o educador se sinta inseguro. Pergunta-se, hesita, busca orientação. Mas é preciso que esse processo avance – que a escuta se transforme em compreensão, e a compreensão, em ação livre e responsável. Isso se chama maturidade.
A liberdade é exigente. Ela não se contenta com obediências automáticas, nem com ações movidas pelo medo. Ela requer que o coração se envolva – que a escolha seja assumida como própria. Deus mesmo, que poderia impor Sua vontade com onipotência, preferiu fazer de nós criaturas livres. E quer que O amemos com liberdade, que façamos o bem porque o reconhecemos como bem, não porque fomos constrangidos a isso. Ninguém se santifica por cumprir, mecanicamente, tudo o que lhe mandaram. A santidade nasce do amor – e o amor verdadeiro só floresce onde há liberdade.
Até mesmo a obediência, em sua forma mais radical – como aquela vivida por monges e pessoas consagradas – não é uma renúncia cega da vontade, mas um ato profundamente livre. É a inteligência iluminada pela autoridade e a vontade que, livremente, se submete por amor. Fora disso, o que resta é servilismo, é escravidão disfarçada de fidelidade.
Isso vale também para questões delicadas da vida familiar, como a abertura à vida. Não se trata de uma obediência passiva aos mandamentos da Igreja, nem de um cumprimento resignado de uma norma. Trata-se de compreender, de refletir, de decidir, com responsabilidade e amor. Deus não deseja casais que apenas “obedeçam” por medo ou inércia. Ele deseja esposos maduros, conscientes, que saibam discernir suas circunstâncias e vivam a paternidade e a maternidade com generosidade e liberdade.
Liberdade verdadeira não é fazer o que se quer, como um impulso cego. É querer o bem, reconhecê-lo, e escolhê-lo com gosto. É agir porque se quer, não porque se foi forçado. É, em suma, crescer. E crescer dá trabalho... Talvez por isso tenhamos tanto medo da liberdade: ela nos obriga a sair da infância da alma, onde tudo nos é dito, e entrar na maturidade, onde tudo precisa ser discernido. Mas só há amor verdadeiro onde há liberdade verdadeira. E só há educação verdadeira quando ela forma seres humanos capazes de escolher – e de se responsabilizar pelo que escolheram.
Uma das maiores ilusões da vida adulta é imaginar que ser livre é simplesmente fazer o que se quer. A liberdade verdadeira, porém, não é ausência de limites, nem a obediência cega a prescrições externas – é maturidade. É a capacidade de agir por intenção e não por inércia; de pensar antes de fazer, de escolher antes de repetir. E nada desafia mais essa liberdade do que as escolhas silenciosas do cotidiano, aquelas que nos forçam a encarar nossa própria responsabilidade.
Em assuntos delicados como a abertura à vida, por exemplo, muitas mulheres ainda se sentem culpadas por tomar decisões conscientes, como se refletir fosse sinônimo de egoísmo. Não é raro ouvir relatos como: “Ah, mas meu marido não se aguenta...”. Como se a responsabilidade pela vida de um novo filho coubesse apenas à mulher. Mas a liberdade conjugal não pode ser um fardo unilateral. Se há um casal maduro que, diante de Deus, reconhece um motivo grave – seja ele emocional, físico, financeiro – para espaçar uma gravidez, e o faz com generosidade e discernimento, então essa é uma escolha responsável. E é isso que se espera de adultos: que usem a liberdade com inteligência e amor.
Deus não nos quer autômatos. Ele nos quer conscientes, lúcidos, sensíveis às circunstâncias e prontos para decidir com prudência
A liberdade não é um abandono da vontade de Deus; ao contrário, é o caminho por onde ela se realiza. Deus não nos quer autômatos. Ele nos quer conscientes, lúcidos, sensíveis às circunstâncias e prontos para decidir com prudência. Amar a vida, ser generoso na paternidade, desejar filhos com alegria: tudo isso está no coração da vontade divina. Mas também está a responsabilidade de bem conduzir os dons recebidos. E, se mesmo com todos os cuidados a gravidez vem, aí é outra história: é o imprevisto acolhido por quem viveu até ali com fidelidade e boa intenção.
O mesmo princípio se aplica a tantas pequenas e grandes escolhas da vida familiar. Cama compartilhada, banho com os filhos, rotinas domésticas – tudo isso deveria ser objeto de reflexão, e não apenas repetição inconsciente. Há mães que se perguntam: “Devo tomar banho com meu filho, como recomendou o pediatra, para criar vínculo afetivo?” É uma questão legítima. Mas a resposta não deveria ser um sim ou não automático, ditado por especialistas ou tradições familiares. A pergunta correta é aquela feita a si mesmo: “Por que estou fazendo isso?”
Tomar decisões por inércia é muito comum. Muitas mulheres nem sequer sabem por que repetem certos padrões – apenas os herdaram. É o que se poderia chamar de memória educativa: fazemos com nossos filhos aquilo que nossos pais fizeram conosco, sem parar para pensar se é realmente o melhor. Mas a liberdade exige exatamente o oposto: que cada gesto seja intencional, pensado, desejado, não apenas aceito passivamente porque “todo mundo faz assim”.
A reflexão é o que nos torna livres. Quantas vezes tomamos decisões baseadas em impulsos, sem pensar nas consequências, e depois nos surpreendemos com os efeitos? Quantas vezes nos afastamos do cônjuge sob o pretexto de cuidados com os filhos, quando no fundo estamos evitando uma intimidade que nos desafia? Quantas vezes nos justificamos com argumentos técnicos, quando o que nos move são nossos próprios vícios, preguiças ou medos?
A liberdade exige que cada gesto seja intencional, pensado, desejado, não apenas aceito passivamente porque “todo mundo faz assim”
É preciso, sim, parar para meditar, e se possível, escrever. Observar com lucidez: Em que fase está meu filho? Quais são suas maiores dificuldades? Quais os riscos e benefícios da escolha que estou prestes a fazer? E, mais do que isso, perguntar-se: “Estou tentando justificar minha consciência? Estou maquiando minha fuga com um discurso pedagógico?” Porque é assim que a liberdade se perverte: quando deixamos de escolher com honestidade e começamos a manipular argumentos para encobrir nossos próprios desvios.
E o mesmo se dá com práticas aparentemente neutras, como o banho com os filhos, que citei há pouco. É evidente que o contato físico tem papel no vínculo afetivo, mas será que um banho de poucos minutos pode ser mais significativo do que as incontáveis horas em que a mãe amamenta, acolhe, embala, consola? Será que é mesmo necessário replicar recomendações genéricas que não se ajustam à realidade concreta da família? O afeto não precisa de moldes artificiais: ele floresce na entrega cotidiana, na presença constante, no cuidado silencioso.
Ora, é preciso admitir: nem tudo que herdamos é digno de ser repetido. Muitas práticas familiares foram feitas sem reflexão, por mera tradição ou falta de informação. E não é desrespeito aos nossos pais reconhecê-lo – é sinal de crescimento. É nosso dever como mães, como pais, como educadores, interromper a cadeia da inércia e instaurar, no lugar dela, o reino da consciência.
A liberdade amadurecida é aquela que pensa. Que pesa. Que decide. E que, depois de decidir, assume com serenidade as consequências do que escolheu. Essa é a verdadeira autonomia: não a que despreza os conselhos ou ignora a experiência dos outros, mas a que escuta tudo, reflete sobre tudo, e decide com amor, sabendo que, se não houver intenção, não haverá liberdade. E, se não houver liberdade, não haverá verdadeira educação.
A liberdade amadurecida é aquela que pensa. Que pesa. Que decide. E que, depois de decidir, assume com serenidade as consequências do que escolheu
Educar é, em grande medida, ensinar a pensar. E pensar exige tempo, exige intenção, exige honestidade interior. Na vida familiar, esse desafio se apresenta todos os dias, nas escolhas mais banais e também nas mais profundas. A dúvida sobre se é adequado dar banho em bebês no colo dos pais, no chuveiro, ou outra qualquer, do mesmo teor, que nos apareça no dia a dia, poderia ser respondida com um simples sim ou não; mas o que se busca não é uma resposta pronta, e sim um convite à reflexão. O verdadeiro objetivo é que os pais assumam, com consciência e responsabilidade, o protagonismo das próprias decisões, com conhecimento de causa. Não se trata apenas de saber se algo pode ou não ser feito. A questão mais profunda é: por que fazemos o que fazemos? E quantas vezes uma decisão doméstica carrega, silenciosamente, a marca da nossa preguiça, da nossa desorganização, da repetição de modelos herdados sem reflexão?...
Essa mesma lógica se aplica a outras áreas da educação familiar, como o uso da tecnologia. Lembro de uma mãe que me procurou para relatar que tirara o celular do filho de 12 anos, e que então ele passou a perder os encontros com os amigos, pois não se atualizava sobre as datas e horários, os combinados. É um problema legítimo, não? Como equilibrar o necessário distanciamento do mundo digital com a inserção social do adolescente? Por isso é preciso compreender que a intenção de limitar o uso do celular não é punição, mas proteção. Um jovem em formação ainda não possui as ferramentas internas para lidar com o bombardeio de informações, opiniões e estímulos oferecidos pelas redes sociais. E se nós, adultos, por vezes nos vemos absorvidos por distrações inúteis, quanto mais os nossos filhos? Eles ainda estão aprendendo a filtrar o que ouvem, a discernir entre o que edifica e o que destrói. A tecnologia, por mais útil que seja, não pode ser um brinquedo entregue sem critérios. Essa é uma análise que busca a causa e compreende os critérios, e nos permite tomar a atitude – livre – de privar ou permitir o uso, em cada caso.
Mas o caminho do equilíbrio nunca se faz com imposição cega. É preciso diálogo. Os pais devem também explicar aos filhos maiores o porquê de determinadas escolhas, mostrar que há valores maiores em jogo – a atenção, o estudo, a leitura, o tempo de convivência, o silêncio interior. E, ao mesmo tempo, encontrar soluções práticas para que os filhos não se sintam excluídos: estabelecer dias fixos para verificar mensagens, facilitar a comunicação com os amigos por outros meios, acompanhar os momentos de acesso à internet com presença e orientação.
O grande segredo está em formar o espírito antes de entregar os instrumentos. Ensinar o filho a usar bem um computador, a fazer pesquisas, a se interessar por conteúdos que elevam – tudo isso pode ser feito antes que ele mergulhe no universo dos aplicativos e redes. Educar para a tecnologia é, sobretudo, educar para o autocontrole, para a seletividade, para o uso intencional.
Educar é formar o coração e a inteligência. É ensinar a escolher com consciência, a viver com intenção, a perceber que cada decisão carrega um valor
Mas tudo isso será incoerente se a vida familiar contradisser o discurso. Se os pais dizem que o celular faz mal, mas passam horas diante da tela; se proíbem a televisão, mas ela permanece ligada o dia inteiro; se falam em moderação, mas se entregam ao consumo desordenado de conteúdo – então, o ensino não se sustenta. A verdadeira educação só se dá pelo exemplo. O estilo de vida da família precisa refletir aquilo que se deseja transmitir aos filhos. Uma casa onde o diálogo é prioridade, onde se lê, se conversa, se valoriza o tempo juntos, será um ambiente onde o celular naturalmente perde seu fascínio. E, mais importante, será um lar onde os filhos perceberão que a tecnologia é uma ferramenta, e não um fim em si mesma.
Não se trata de viver como eremitas, mas de cultivar o essencial. Uma vida sem ruído constante, sem a compulsão por estímulos digitais, é uma vida mais ordenada, e esse é um valor que os filhos aprendem pela observação cotidiana. Quando veem os pais vivendo com sobriedade, eles aprendem que é possível, sim, viver bem com menos estímulo, com mais silêncio, com mais presença.
Para além do banho conjunto e do uso das tecnologias, poderíamos prosseguir a análise para quaisquer, literalmente quaisquer outras práticas educativas, familiares e de costumes domésticos, pois nenhuma regra imposta de forma irracional tem muita chance de sucesso. Muito logo a fixidez da regra vai se sobrepor ao sentido real da situação, trocaremos os fins pelos meios e teremos, ao fim, um resultado diferente do que desejávamos em princípio, simplesmente porque aceitamos as “ideias feitas e mastigadas” de que falava Millôr Fernandes. Ao fim, a questão é sempre a mesma: educar é formar o coração e a inteligência. É ensinar a escolher com consciência, a viver com intenção, a perceber que cada decisão carrega um valor. Seja na escolha de tomar ou não banho com o filho, seja na decisão sobre o uso do celular, o que está em jogo não é apenas um detalhe da rotina, mas a formação de um modo de viver, um sentido que molda as ações particulares. E esse discernimento de causa é a verdadeira... liberdade.
Se queremos que nossos filhos saibam escolher bem, precisamos, antes, aprender nós mesmos a escolher – não por impulso, não por tradição cega, não por medo da crítica, mas com liberdade, com razão, com amor. Assim poderemos olhar para o alto e, com muita tranquilidade, sem ufanismos bobos, dizer: “Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós...”.