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A ressurreição não é pouca coisa
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“A ressurreição de Cristo”, de Rafael Sanzio. Dá para ver no Masp, em São Paulo.

Dos muitos temas fascinantes em que ciência e fé se encontram, talvez um dos mais intrigantes seja o dos milagres. E, dentre eles, o mais espetacular de todos é, sem dúvida, a ressurreição de Cristo. O século 20 chegou a ver até teólogos cristãos, como Dietrich Bonhoeffer e Rudolf Bultmann, negarem a historicidade da ressurreição, alegando que se tratava de uma metáfora, uma história para dar esperança aos cristãos, e por aí vai. Aliás, é um ponto de vista que ainda pode ser encontrado hoje: o padre Fábio de Melo afirmou, em um de seus livros, que a materialidade da ressurreição não é uma necessidade (está no Cartas entre amigos, escrito com o Gabriel Chalita). Parece que são Paulo não concorda muito com essa visão, já que, segundo ele, se Cristo não ressuscitou, a fé dos cristãos é vã.

Na semana passada, o blogueiro, escritor e documentarista Dick Staub escreveu no Huffington Post sobre um programa que ele está filmando para o History Channel (que quase não assisto por não ter tevê por assinatura; mas, quando vejo, na casa dos meus pais, me parece que anda muito obcecado com o fim do mundo) sobre os dias de Jesus entre a ressurreição e a ascensão. Nesse meio tempo, muita coisa incrível aconteceu (a começar pela própria ressurreição), basta ler os evangelhos. Staub recorda seus dias de seminário, nos anos 70, em que acreditar em milagres era quase como passar atestado de ingênio (ou idiota mesmo). Eram os dias em que a tese do conflito entre ciência e fé era praticamente inatacável.

Mas Staub propõe uma nova abordagem para a questão dos milagres. “O que ocorreu na ressurreição, na ascensão e entre esses dois episódios parece simplesmente impossível; nesse ponto, crentes e céticos podem estar de acordo”, afirma. Para ele, no entanto, os crentes poderiam abandonar uma certa atitude em relação a milagres que parece fazer pouco do tamanho do fenômeno (o original “glibness” não tem tradução fácil; ele descreve uma certa naturalidade, quase um tom blasé), quase como que dizendo “é, Deus faz milagres mesmo, o que tem de extraordinário nisso?”; e os cientistas deveriam abandonar sua certeza sobre a impossibilidade dos milagres.

Quem acompanha o blog há mais tempo já deve imaginar que eu acredito, sim, na possibilidade de milagres, na historicidade da ressurreição de Cristo, etc. E concordo com a primeira parte da afirmação, no sentido de que o milagre não é para ser banalizado pelos que acreditam em Deus. Mas não sei se a ciência deve “abandonar sua certeza sobre a impossibilidade dos milagres”; talvez não nos termos descritos por Staub. A ciência precisa investigar tudo, testar as hipóteses, embora também precise ser humilde quando se encontra diante de um caso inexplicável. O milagre é uma forma particular de interação entre Deus e a criação, e pode ser por isso que ele exerça tanto fascínio. É um assunto que já foi abordado por gente como Keith Ward, John Polkinghorne e Ian Barbour. Estão todos na minha estante esperando por um tempo livre…

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O Tubo de Ensaio é um dos três finalistas do prêmio Top Blog 2010 na categoria “blogs profissionais/religião”, pelo júri popular. Também são finalistas o Ancoradouro, de Fortaleza, e o blog da Ana Néri (que conheci pessoalmente quando estive no programa do professor Felipe Aquino). Queria agradecer a todos que votaram no Tubo e aos que fizeram campanha para convencer outros a votar. Até o fim desta semana sai a lista dos finalistas pelo júri acadêmico.

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