Bom Gourmet
Na dúvida de onde ir no fim de semana? Escute as playlists e escolha pela música
Há duas semanas convidei uma amiga para conhecer um lugar que gosto muito. Ela me encontrou no balcão e, entre um gin e outro, elogiávamos a decoração e a comida. Mas a música, era um problema.
Eu gritava para ela: “Que tal este bolinho?”. Ela me berrava de volta “Muito gostoso, sequinho”. Eu devolvi: “Não entendi. Muito gorduroso ou sequinho?”, e ela: “Gorduroso não! Gostoso”.
O repertório, executado ao vivo, estava ok, mas o volume – proibitivo - incomodava. A música deveria escorregar pelos ouvidos como manteiga pelo pão quente. O estabelecimento tinha uma culinária maravilhosa, mas fomos embora precocemente por causa, justamente, do que deveria colaborar pra nos manter ali: a música.
Uma lástima.
Esta passagem corrobora com uma teoria: se comemos com os olhos e o aroma agradável antecipa uma boa culinária, a audição também interfere diretamente na refeição. Quem nunca teve vontade de ficar mais tempo à mesa por causa da música? Frequentemente, escolhemos lugares para comer onde a melodia tempera a experiência. Outras vezes, deixamos de ir porque o barulho é um problema.
Pensando nisso, o Bom Gourmet me fez o convite para reunir uma pequena lista de estabelecimentos onde há um cuidado especial com o que os clientes vão ouvir, do volume ao repertório. Entre chefs e donos de restaurantes, conversei com profissionais que se preocupam em reunir algumas das playlists mais descoladas de Curitiba. Concluí que, sim, elas fazem parte da nossa cena gastronômica.
Carlo Ristorante

O maior restaurante do Beto Madalosso, Carlo tem aquela varanda que remete a um grande lounge. Com projeto de paisagismo, sofás confortáveis e um teto que se abre para as noites mais agradáveis, não é de estranhar que ali a Lounge Music reine. Reunida pelo próprio empresário que, pessoalmente, aprecia de Raimundos a cancioneiro espanhol e moda de viola, a playlist do restaurante traz “música agradável pra acompanhar uma refeição”, contou-me o Beto. Ele também revelou que teve ajuda do DJ Alex Soul e que a lista é alimentada de tempos em tempos.
Sobre a conexão da música com a casa, Beto Madalosso emendou: “O conceito do restaurante traz contemporaneidade, arquitetura moderna e o repertório, escolhido a dedo no walkman, também[...]. A cada garfada, uma toada”.
Um poeta, este maestro!
Carlo Restaurante - escute a playlist
Av. Iguaçu, 2820 - Água Verde
Curry Pasta

Outro chef e dono de restaurante que, definitivamente, sabe conectar música com a arte dele na cozinha é o Rafael Lafraia, do Curry Pasta. Como o nome antecipa, ele entrega uma culinária bem autoral, fusão da indiana com a italiana. O resultado são massas artesanais, carnes e frutos do mar com masalas e temperos carregados de aromas marcantes e de especiarias frescas.
A playlist do restaurante – com indie, reggae progressivo, funk, groove e dub - foi montada por ele e pela esposa, a Renata. Perguntado sobre como os estilos se conectam com o ambiente, ele relacionou as cores, luz e o próprio estilo de comida.
“De várias formas a playlist acaba fazendo sentido com tudo ao redor: os quadros, o papel de parede, a iluminação indireta. Música faz toda a diferença e une com harmonia vários elementos [...]. É fácil ver que tudo converge: os pratos coloridos, músicas com beat, groove, especiarias e aromas”.
Isso mesmo, chef. Música boa tem sabor e textura. Boa gastronomia soa bem aos ouvidos.
Curry Pasta - escute a Playlist
Av. Manoel Ribas, 750 – Mercês
Lotus Sunset

A casa do empresário e bartender Juliano Andrade remete a uma tenda elegante, um oásis para se beber, comer e estar bem. Ali existe uma preocupação evidente com o bem-estar de quem entra, do projeto de iluminação ao mobiliário. A atmosfera é cosmopolita. Cada vez que vou, imagino que poderia estar em qualquer outra parte do mundo, além de Curitiba. Faz sentido, uma vez que o Juliano já rodou o mundo trabalhando como executivo de multinacionais, antes de abrir esse sunset lounge.
Para acompanhar a gastronomia e os coquetéis extraordinários – o Lotus é a única casa que conheço em Curitiba que serve cinco tipos diferentes de Negroni –, Andrade optou por uma playlist que reúne música eletrônica lounge, chill in, chill out, house e deep house.
“A casa tem uma energia para que as pessoas se sintam na praia. Seja no inverno ou no verão, a ideia é trazer um mix com foco na coquetelaria, atendimento, música e gastronomia em um ambiente mais animado”, explicou.
Andrade ainda revelou que a playlist é “produzida, remixada e alimentada” por ele quase todos os dias, a partir de pesquisas de tendencias musicais e de DJs que já fazem parte dos setlists.
Sobre a conexão com a gastronomia, “o set evolui de acordo com a evolução da casa. A cada momento de consumo, o estilo da música dita o ritmo e a velocidade com que as coisas acontecem no Lotus. A gastronomia se conecta a este cenário musical, sempre em um momento um pouco mais leve, porém, pra cima. É o momento preparatório para a coquetelaria e para a noite do Lotus.”
Lotus Sunset - a playlist não está disponível nas plataformas de audio
R. Fernando Simas, 221 – Bigorrilho
Mezmiz

Apaixonado pela culinária árabe e pela atmosfera musical do Mezmiz, corri ao encontro da Vaneska Berçani. Eu já sabia que ela era um misto improvável de cozinheira, chef, empresária, administradora, arquiteta, marqueteira, psicanalista, esposa, dona de casa e mãe de meninos. Praticamente a Maga Patalógica da gastronomia. Eis que esta apuração me fez descobrir, assombrado, que ela é também DJ e produtora musical.
Enquanto massageava a massa ainda crua das esfihas, Vaneska me contou sobre os estilos musicais reunidos na playlist do restaurante. Eles variam de acordo com os horários do dia. Pela manhã, toca a playlist Mezmiz Aconchego, que traz o conceito de conforto, leveza, positividade. A ideia é manter a energia alta.
"À tarde, tocamos Mezmiz Novidades, onde os conceitos são energia, felicidade e exuberância para um período do dia que as pessoas estão mais agitadas. Músicas mais alegres tomam o ambiente. À noite, buscamos contentamento, prazer e resistência com calma, a partir da playlist Mezmiz Clássicos.”
A Vaneska escolheu estas linhas pessoalmente e justifica enquanto ajuda as cozinheiras a enrolarem os quibes.
“A reação emocional à música é diferente para cada pessoa. Portanto, escolher o mood significa selecionar música que representa determinados estados de espírito. Escolhemos a ideia de acompanhar os momentos do dia para estarmos em conexão com as pessoas."
Perguntada sobre a conexão da música com a gastronomia no restaurante dela, a Vaneska me deu a resposta junto com uma colherada de Babaganush que me alcançou direto da forma com aroma de defumado. “Mezmiz significa comer, beber e conversar, tudo junto ao mesmo tempo. Com esta ideia de experiência sensorial, criamos um ambiente agradável, aconchegante e acolhedor. Nossa cozinha entrega aromas e sabores e a música preenche o ambiente.”
Agradeci o tempo da cozinheira e deixei o restaurante com a alma flutuando entre acordes de Sade, Nina Simone e notas de sabores do Oriente.
Mezmiz - escute a playlist
R. Brasílio Itiberê, 4412 - Água Verde
Petrisserie

Você já ouviu falar em MPC? Música Popular Carioca. É que, segundo o empreendedor fluminense Felipe Petri – e alinho 100% com ele –, a música popular da forma como é tocada no Rio só é encontrada lá e em nenhum outro lugar do país.
Mas esta realidade parece que mudou com a abertura do Petrisserie. O lugar é um híbrido de boteco para happy hour com restaurante e quintal cultural e foi inaugurado há pouco numa das ruas mais arborizadas das Mercês. É ali, na Casa do Petri, que as pessoas são amavelmente recebidas ao som de “novidades da cena urbana carioca”, segundo o próprio chef e proprietário do local.
Os sets foram reunidos pelo DJ Senna, que conta com uma boa notoriedade no Rio de Janeiro. “São ritmos oriundos da África, muita influência de ritmo nordestino, ritmos urbanos, samba carioca, MPB mais periférica, coisas mais autênticas.” Esta urbanidade combina com a arte nos quadros do salão interno do estabelecimento, com a exposição de charges ao longo do corredor e com as pinturas sobre os muros que circundam o quintal gramado e arborizado.
Ao responder sobre a conexão da playlist com a gastronomia da casa, que serve almoço executivo, café da tarde e cardápio de happy hour em turnos distintos, Felipe Petri foi direto ao ponto: “Somos uma ode ao Brasil”.
Petrisserie - escute a playlist
R. Tenente João Gomes da Silva, 405 – Mercês
Restaurante Igor

Quem conhece o chef Igor Marquesini, sabe que ele não é de muitas palavras. Tampouco trata-se de uma pessoa fechada ou retraída. Muito pelo contrário, o sorriso de criança é uma das características que saltam aos olhos do interlocutor. A natureza serena – já foi chamado de Dalai Lama da gastronomia – não ofusca a carreira de tons marcantes, sabores impactantes e pratos com alimentos apresentados em formas surpreendentes.
Não tenho receio de deixar registrado que, para mim, o chef Igor é meio paradoxal na sobreposição da personalidade sobre a arte que entrega no restaurante que leva o nome dele, numa ruazinha arborizada bem no coração do Batel. Sereno nos modos, Igor e equipe são arrojados na cozinha e no modo de receber e servir.
Com quatro anos completos em fevereiro deste ano, o Restaurante Igor parece acumular quatro décadas de excelência na gastronomia. A música sempre me abraçou dentro do salão aconchegante. Por isso pedi que relacionasse o que ouvimos ali. O repertório, montado por ele mesmo, inclui Peter Bjorn and John, The Kooks, The Black Keys, The Cat Empire...
Sobre as escolhas, Igor esclarece: “Escolhi para quebrar alguns paradigmas de que restaurantes com o nosso estilo de serviço – ali são servidos somente menus degustação – precisam tocar jazz. O restaurante leva meu nome e servimos como se estivéssemos recebendo na minha casa. Desde o momento em que o cliente chega e precisa tocar a campainha para entrar. Nada mais justo do que trazer música e um ambiente com a minha cara”.
Ele ainda declarou que sempre que tem tempo livre, procura trabalhar na playlist, durante viagens, no trem ou no avião. “Os cenários inspiram”, diz ele. Há quadros pelas paredes do restaurante retratando a mata da Serra do Mar. A cozinha, recentemente aberta para o salão, permite que os cozinheiros observem as paisagens enquanto são observados trabalhando.
Sobre a conexão da playlist com a casa e com a gastronomia, o Igor segue discorrendo com propriedade.
“Utilizamos copos e taças de cristal, guardanapos em linho. A música é um dos meios para fazer com que o restaurante tenha uma atmosfera em que tudo se converse e não dê a impressão de ter um tom engessado. Quando adiciono as músicas, procuro pensar em que sentimento o cliente teria ao ouvir aquela música, tomando um vinho, conversando com amigos. Ou, então, o casal ao provar a comida. Acredito que a soundtrack muda totalmente a experiência. Ela precisa fazer com que o cliente se deixe levar pelo momento.”
Restaurante Igor - escute a playlist
R. Gutemberg, 151 - Batel
*Andre Bezerra é cronista da gastronomia de Curitiba e autor do livro O Monstro e o Animal. @andrebezerraoficial