Thumbnail

Crescimento da saúde digital

Telemedicina já é utilizada por metade dos brasileiros

Maria Clara Dias, especial para o GazzConecta
05/03/2021 13:31
A saúde foi mais um entre os setores que viram na pandemia a necessidade de se digitalizar. Com a contaminação em larga escala pelo vírus da Covid-19, as empresas do setor se viram diante de uma demanda impensável de pacientes. Elas, porém, tiveram a seu favor a tecnologia e, é claro, a telemedicina - que já é utilizada por mais da metade dos brasileiros.
Segundo uma pesquisa realizada pela Capterra, empresa de busca e comparação de softwares que pertence à consultoria Gartner, 55% dos pacientes brasileiros afirmam já ter feito uma consulta usando a modalidade, o que representa um total de seis a cada 10 pessoas no país. O estudo buscou analisar a relação entre a adoção das consultas a distância no Brasil e a percepção dos pacientes sobre a efetividade do tratamento remoto. Foram ouvidas 1.004 pessoas de todo país em dezembro de 2020.
A conclusão é de que entre os pacientes brasileiros, a telemedicina não se tornou apenas popular, mas passará a ser a preferência de 46% das pessoas, que afirmam querer seguir utilizando essa modalidade de atendimento mesmo após o fim da pandemia e confiam em sua eficácia.
“De maneira geral, a confiança na telemedicina é ampla. Mesmo entre aqueles que a conhecem, mas preferem não utilizá-la, somente 3% afirmam não acreditar que esse tipo de atendimento seja eficaz”, aponta o content analyst do Capterra, Lucca Rossi.
Em meio a uma pandemia global, o medo da exposição a uma possível contaminação foi o motivo apontado por quatro de cada dez entrevistados para o uso da telemedicina (66%). Em seguida estão a rapidez e a praticidade, ambas com 16% das respostas.

O futuro da telemedicina no Brasil  

Com o avanço tecnológico e o surgimento de novas empresas e diferentes modelos de negócio no setor, é possível que as startups passem a ditar os rumos da telemedicina e do atendimento médico no país.
Desde 2014, às startups de saúde, as chamadas healtechs, já receberam mais de US$430 milhões em aportes no modelo de Venture Capital em 189 rodadas de captação, segundo levantamento do Distrito, empresa de inovação aberta. Já são 542 startups do setor, e 33 delas são voltadas à saúde mental - outra revolução trazida pela pandemia e isolamento social.

Espaço para oportunidades

Entre os principais benefícios da telemedicina, os respondentes apontaram a possibilidade de acesso ao tratamento de qualquer lugar (72%) e o menor risco de contaminação em hospitais ou consultórios (71%). Uma pequena parcela das respostas remete à qualidade do tratamento (24%), o que também dá ao setor de saúde a chance de inovar - algo muito bem explorado pelas healthtechs.
O estudo do Capterra também mapeou a adoção da telemedicina entre os pacientes com e sem plano de saúde. Entre os não segurados, somente 37% afirmam já ter feito uma consulta do tipo, enquanto 62% dos pacientes com plano de saúde já tiveram acesso ao atendimento digital.
A nível nacional, o atendimento digital da rede pública de saúde surgiu apenas em abril de 2020 a partir da criação do TeleSUS, serviço do Sistema Único de Saúde (SUS). O TeleSUS atende, por meio de chats e telefone, pacientes com sintomas relacionados à covid-19. Contudo, não há uma rede estruturada para o avanço da telemedicina para a população que utiliza o sistema público de saúde.
A dependência direta dos investimentos públicos para o desenvolvimento de plataformas inteligentes e serve de entrave para o avanço da telemedicina no Brasil, segundo Rossi. “Essa disparidade [acesso da telemedicina por pacientes com e sem plano de saúde] pode ser decorrente do fato de que muitos dos que não possuem planos de saúde acudam ao atendimento público, onde a adoção de novas tecnologias depende de muitos fatores, talvez o principal deles relacionado a investimentos em saúde pública”, diz Rossi.

Resolvendo a disparidade

O acesso à telemedicina evidencia um grande abismo entre pessoas que possuem ou não planos de saúde. É nesse contexto que entra a ViBe, uma startup de telemedicina e atenção primária.
Fundada em 2018 por Ian Bonde e Ricardo Joseph, na época com foco em B2B e no atendimento psicológico, a ViBe hoje foca em pessoas sem planos de saúde que, segundo a Agência Nacional de Saúde (ANS) ultrapassam a casa dos 160 milhões. “A ideia da ViBe foi sempre ter um impacto positivo na saúde do país”, diz Ian Bonde, fundador e CEO da ViBe. “Vimos na saúde primária a oportunidade de trazer impacto e ao mesmo tempo monetizar o acesso à saúde no Brasil”, afirma.
Para expandir a frente B2C, a startup recebeu, ainda em 2019, uma rodada de R$ 12,5 milhões para integrar o acesso também a outras especialidades médicas no app, como médicos especialistas e nutricionistas. O investimento deu certo: a empresa terminou o ano de 2020 com mais de 780 mil downloads, e vai chegar ao dobro deste número ao final do mês de março.
Por meio de sua plataforma, a ViBe oferece consultas sob demanda e agendadas com profissionais clínicos e de saúde mental. Segundo Bonde, o grande diferencial da ViBe está no cuidado digital contínuo. “Temos toda a parte de conteúdo, desafios, um feed de informações, linhas de cuidado. Não é uma coisa com início, meio e fim, como uma consulta”, conta.
A pandemia e a flexibilização da regulamentação foram vitais para o crescimento exponencial da startup, que passou a integrar novas especialidades em telemedicina em julho de 2020. Até o final de 2021, a ViBe espera de 4 a 5 milhões de usuários no app e uma média de atendimento mensal de 100 mil consultas frente às 45 mil que acontecem atualmente.
A ViBe oferece 5 consultas gratuitas por ano para cada usuário. Depois disso, o aplicativo funciona por meio de assinaturas mensais,já intermediou 75 mil consultas gratuitas em 2020. “O hábito pelo uso das soluções de digital veio para ficar, e como uma healtech inovadora, iremos olhar para isso com inovação também”, conclui o empreendedor.

De olho nas grandes redes

A parceria com redes privadas também é apontada pelo estudo como uma movimentação cada vez mais comum no setor. A exemplo disso está o uso de telemedicina de startups por grandes instituições como o hospital paulista Albert Einstein.
“É uma questão que foge da nossa análise. Sei que o modelo das parcerias público-privadas é um dos que vêm sendo testados na área da telemedicina envolvendo hospitais como Albert Einstein e Sírio-Libanês”, afirma Rossi, da Capterra.
A ViBe também assinou recentemente um acordo com o maior grupo hospitalar e clínico privado do Brasil, a Rede D'Or São Luiz. Em um primeiro momento, a startup viu na parceria a oportunidade para a entrada no setor corporativo. Agora, segundo Bonde, esse tipo de parceria também oferece a possibilidade de um paciente usar a rede para atendimentos presenciais, secundários ou até mesmo terciários. “Uma das vantagens dessa união com grandes redes é poder dar esse cuidado integral e adicional ao atendimento online aos nossos pacientes'', diz.
Tal movimentação está em cheque com a falta de interação pessoal, apontada por quase metade dos respondentes da pesquisa da Capterra como uma das principais desvantagens da telemedicina. De acordo com a pesquisa, o atendimento virtual servirá como um complemento ao presencial: apenas um a cada dez pacientes diz usar a telemedicina para todos os seus atendimentos médicos.
“As novas tecnologias já estavam aqui, a pandemia somente acelerou sua adoção. É importante lembrar, no entanto, que o atendimento à distância não substitui o presencial e que se trata apenas de um complemento a este”, afirma Rossi.
Este site utiliza cookies e outras tecnologias para conhecer melhor nossos usuários, exibir publicidade personalizada e aprimorar nossos serviços. Ao utilizar nossos serviços você concorda com a Política de Privacidade ePolítica de Cookies.