Opinião
Arquitetura
Arquiteto que estudou vida e obra de Lolô Cornelsen se despede do mestre modernista

Lolô Cornelsen e Guilherme de Macedo em frente a Residência Belotti. Foto: Guilherme de Macedo/Arquivo pessoal
Desbravando Lolô

Eu conheci o Lolô em 2010, na época da faculdade nos meus primeiros anos de arquitetura. A inquietude me fez, juntamente com alguns colegas, criar um blog para falar sobre arquitetura. O compromisso era fazer um post semanal. O desafio era encontrar temas interessantes. Em uma dessas buscas, eu encontrei sobre o Lolô e fiquei fascinado com a quantidade de feitos que ele tinha realizado... casas interessantíssimas, estádios de grande porte, autódromos de renome, estradas importantes, uma vasta produção arquitetônica e obras civis, não muito divulgadas em meio ao universo acadêmico.
Isso me motivou a ir lá na sua casa e bater a sua porta na intenção de conseguir uma entrevista para o nosso blog. Felizmente ele estava lá e me surpreendeu com a sua receptividade. Parecia algo normal e comum estudantes entrarem e saírem da sua casa. Em pouco tempo estávamos tomando café e falando sobre arquitetura. Aproveitei a oportunidade e fiz o convite para ele palestrar na minha universidade. Ele aceitou. O blog, depois de um tempo, acabou, mas de lá pra cá fui me encantando cada vez mais com cada descoberta que fazia sobre o Lolô.
Descobri que ele foi jogador de futebol (bi-campeão paranaense pelo Atlético Paranaense nos anos 40), descobri que ele inventou a caixa de brita (improvisando para corrigir acidentes na pista de Estoril), descobri que ele desenhou o uniforme da Polícia Rodoviária do Paraná (aquele de cor grená com quepe e coturno), descobri o quanto ele amava sua esposa e seus filhos. Em 2014 eu me formei arquiteto e urbanista e, na procura de um lugar para montar o escritório, encontrei uma das casas projetadas por ele, a Residência Belloti, na Dr. Faivre, a qual tinha acabado de ser restaurada e estava aberta ao público. Tive a oportunidade de ter uma pequena sala lá, onde pude levar o Lolô já com seus noventa e tantos e receber a sua bênção.

A Casa Belotti recebia estudantes de muitos lugares querendo saber mais sobre a obra e seu autor. Geralmente era eu quem os guiava apresentando os detalhes construtivos e arquitetônicos do projeto e, em algumas ocasiões, conseguia levar o próprio Lolô para falar diretamente com eles. Acho que foi a partir daí que surgiu a vontade de escrever um livro sobre a vida e obra dele. Na época estava escrevendo outro livro, sobre os prédios de Curitiba. Então deixei essa ideia para um plano posterior.
Em 2017 iniciei o projeto por meio da Fundação Cultural de Curitiba, onde a partir daí tive a oportunidade de pesquisar e conhecer mais a fundo sobre as suas obras e projetos e o quanto ele foi intenso em cada etapa de sua vida. Foi intenso ao chocar a arquitetura curitibana com suas casas modernas, foi intenso ao desbravar o Paraná implementando grandes obras, foi intenso quando precisou trabalhar fora de sua cidade projetando hotéis, autódromos e complexos turísticos em Portugal e na África, foi intenso quando voltou e acreditou que poderia fazer do Paraná um grande estado, bolando ideias para o seu desenvolvimento. Lolô foi intenso também em seus últimos dias, pintando quadros e modelando esculturas de pão em sua casa.
Obrigado, Lolô.

SERVIÇO
O livro "Lolô Cornelsen: vida e obra" será lançado em junho de 2020 no Paço da Liberdade com data a confirmar.
Mais informações em @lolocornelsenvidaeobra e @lonaarquitetos.
*Guilherme de Macedo é arquiteto e urbanista, sócio fundador do Lona Arquitetos e um dos autores do projeto multiplataforma "Prédios de Curitiba".