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Tragédia

Brasileiro que superou o K-2 chama de fatalidade tragédia que tirou vida de alpinistas

Nieclevicz foi o único brasileiro a conquistar o cume da segunda maior montanha do mundo | Pakistan Tourism / Reuters
Nieclevicz foi o único brasileiro a conquistar o cume da segunda maior montanha do mundo (Foto: Pakistan Tourism / Reuters)

Uma fatalidade. É assim que Waldemar Nieclevicz, único brasileiro que conquistou o cume do K-2, a segunda maior montanha do mundo, no norte do Paquistão, define a tragédia que, no último fim de semana, provocou a morte de pelo menos 12 alpinistas. O grupo ficou preso acima de um ponto conhecido como Gargalo da Garrafa, a cerca de 8.200 metros de altitude e apenas 400 metros abaixo do pico, depois que um grande bloco de gelo se soltou, arrastando consigo as cordas fixas que serviam de apoio para os escaladores. Sem ter como descer, os alpinistas teriam ficado à mercê de dois grande vilões: o frio e o ar rarefeito.

- Aparentemente, tudo ia bem até os alpinistas chegarem ao cume da montanha, a 8.611 metros de altitude. Quando iniciaram a descida, aconteceu a avalanche e eles perderam o cordão umbilical que os ligava ao último acampamento. Ficaram ilhados, sem abrigo, sem água e sem comida - conta o alpinista, que em 2000, após quase dois meses de subida, fez história ao "cravar a bandeira do Brasil" no pico da montanha. - Esse é um trecho que normalmente já é muito delicado de se descer. Sem a camada de neve, então, o gelo fica duro como vidro e muito escorregadio. Quem aposta na descida, nessas circunstâncias, corre sério risco de cair lá de cima.

O brasileiro sabe do que está falando. Ele conhece bem o trecho em questão e o drama vivido pelos alpinistas. Há oito anos, logo após alcançar o cume do K-2, Waldemar também ficou preso acima do Gargalo da Garrafa, sem provisões.

- Eu e outros dois alpinistas chegamos ao pico da montanha por volta de 18h30m, após mais de 19 horas de caminhada, desde a última base. Estava cansado, sem comida, sem água, sem garrafa de oxigênio, sem barraca, sem saco de dormir e, para piorar, sem a minha lanterna. Começamos a descer já estava escuro. Foi uma descida bastante nervosa. Eu tomei duas quedas e quase caí no abismo, antes de decidir parar e esperar amanhecer - conta Waldemar, que teve que dormir ao relento, sob um frio de menos de 30 graus negativos. - Meus amigos continuaram, mas eu achei mais seguro parar. Só nos encontramos novamente no acampamento às 7h30m do dia seguinte. Quando eles me viram, parecia que estavam olhando para um fantasma. Achavam que eu não sobreviveria naquelas condições.

A surpresa dos colegas de Waldemar tinha sentido. Ele enfrentou o que os alpinistas chamam de zona da morte. Isso porque, acima de 7.500 metros, o corpo começa a se degenerar por falta de oxigênio.

- Foi o pior momento da minha vida. Eu só parei porque estava bem emocional e fisicamente e o clima era bom, apesar de estar fazendo muito frio. Não ventava e não nevava - lembra o brasileiro, que narra a aventura no livro "Um sonho chamado K-2", da editora Record. - Mas eu sabia que, fisiologicamente falando, um ser humano só sobrevive 48 horas dentro da zona da morte. Com o ar rarefeito, as células mal conseguem se multiplicar, o corpo começa a entrar em colapso.

E foi isso, segundo ele, que aconteceu com os 12 alpinistas que ficaram presos na montanha. Exaustos, desidratados, expostos ao frio e ao ar rarfeito por longo período, eles teriam começado a desenvolver edemas pulmonares e cerebrais.

- Essa tragédia é ainda pior que o chamado "Verão Negro" do K-2, quando, em 1986, 13 pessoas morreram em acidentes isolados na montanha - conta Waldemar, que acha quase impossível ainda haver alpinistas com vida em cima da montanha. - Talvez a lista de mortos aumente, porque ainda há três ou quatro pessoas do grupo desaparecidas.

A dificuldade do K-2, segundo o brasileiro, está na sua verticalidade, na dificuldade técnica e no clima da região, que é muito instavel.

- Não é comum encontrar pessoas inexperiente no K-2. Para enferenter uma montanha tão difícil como essa, é preciso muita experiência, muito conhecimento em escalada em outras montanhas ao redor do mundo. Definitivamente não é lugar para quem está fazendo a primeira escalada.

Para o especialista, a melhor época para se escalar o K-2 é no Verão, quando as temperaturas - e os ventos - são mais amenos.

- Geralmente, as expedições chegam ao K-2 no início de Junho e procuram fazer o cume em Julho. Esse grupo resistiu e fez o ataque final [a subida ao cume] no dia 1º de agosto, o que pode ser considerado um pouco tarde, segundo estatísticas do últimos anos - analisa. - Mas as informações ainda não são claras. Não dá para dizer que foram imprudentes, até porque o céu estava claro e não havia previsão de mau tempo no momento da avalanche.

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