Negociação
Colômbia vai à Unasul, mas rejeita "paz" de Caracas
Folhapress
Em meio a um novo round retórico entre Bogotá e Caracas, a Colômbia anunciou ontem que enviará representante à reunião de chanceleres da União de Nações Sul Americanas (Unasul) amanhã, em Quito, convocada a pedido da Venezuela para discutir a crise bilateral.
O chanceler venezuelano, Nicolas Maduro, em turnê por quatro países da região em 24 horas, repetiu ontem que seu país levaria à reunião um "plano de paz sul-americano para resolver o "problema de fundo, que é o conflito armado colombiano.
Porém, o presidente colombiano, Álvaro Uribe, chamou de "armadilha o chamado à paz, uma estratégia das guerrilhas para ganhar "oxigênio, e exortou as Forças Armadas do país a não "afrouxar "a nuca da cobra do terrorismo.
"Agora querem internacionalizar a solicitação de que levantemos o torniquete, disse Uribe.
A Chancelaria colombiana já havia dito que espera da Unasul um "mecanismo concreto para obter de Caracas resposta sobre o "tema de fundo: as denúncias de que chefes guerrilheiros colombianos estão abrigados no país vizinho.
O ex-chanceler colombiano, Augusto Ramírez Ocampo, criticou as gestões externas de Bogotá, que chamou de "chumbomacia ("plomacia, em espanhol). Mas afirmou que não há espaço neste momento para a participação externa em uma eventual negociação política do conflito, como a que parece propor a Venezuela. "Pode ser mais uma cortina de fumaça de Caracas para não falar das denúncias.
Na Argentina, Maduro afirmou que a Venezuela espera uma "retificação profunda do novo governo colombiano, que inicia em dez dias com a posse de Juan Manuel Santos.
O recente mas não inédito conflito diplomático entre Colômbia e Venezuela, iniciado na semana passada, fez ressurgir a figura de Néstor Kirchner, ex-presidente da Argentina e atual secretário-geral da União das Nações Sul-Americanas (Unasul). Esquecido após a eleição da esposa, Cristina Kirchner, Néstor volta à cena como principal mediador do embate entre Hugo Chávez e Rafael Uribe.
Na quinta-feira passada, a Colômbia denunciou à Organização dos Estados Americanos (OEA) a presença de 1.500 guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e do Exército de Libertação Nacional (ELN) em território venezuelano. A Venezuela reagiu e rompeu relações diplomáticas com o país vizinho sob o pretexto de que os colombianos estariam preparando uma agressão militar ao país de Hugo Chávez.
Empenhado em apaziguar a região e resolver o conflito entre os dois países vizinhos, Kirchner se reuniu na segunda-feira com Juan Manuel Santos, presidente eleito da Colômbia e sucessor de Rafael Uribe. O encontro foi realizado na residência do embaixador colombiano em Buenos Aires. Na nova tarefa, o ex-presidente conta com o reforço da esposa, que tem atuado nos bastidores das negociações e também se reuniu com o presidente colombiano eleito.
Santos assume a Presidência da Colômbia no próximo dia 7 e, ao contrário de Uribe, já acenou que pretende reestabeler as conversações com o governo venezuelano
Mediação
Em relação à liderança argentina no conflito entre os dois países, especialistas consideram natural que a Argentina ou o Brasil tomem a frente das negociações, devido à hegemonia política que ambos sempre tiveram na região.
"Kirchner é o atual secretário-geral da Unasul. Com a negativa da Venezuela de discutir a questão na OEA, é natural que o ex-presidente argentino figure como principal mediador", avalia Pedro Paulo Funari, coordenador do Centro de Estudos Avançados da Unicamp e professor do Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da mesma instituição.
Kirchner tem apostado no entendimento entre Santos e Chávez, tendo em vista que a relação entre Uribe e o presidente venezuelano nunca foi das melhores. "Sempre houve tensão entre os dois países, principalmente devido às diferenças ideológicas entre seus presidentes", afirma Sérgio Gil, professor do curso de Relações Internacionais das Faculdades Integradas Rio Branco. Gil ainda destaca que o papel de principal mediador exercido pela Argentina pode ser comprometido pelo nível de relação existente entre o casal Kirchner e Hugo Chávez o qual foi acusado de ter envolvimento no episódio de envio ilegal de dinheiro para a campanha presidencial de Cristina, em agosto de 2007.