Após chacina, delegacia da Polícia Marítima passou a fiscalizar o Lago de Itaipu| Foto: Osmar Nunes/Gazeta do Povo
Conselheiros têm dura rotina: dinheiro e status do tráfico conquistam muitos jovens
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É de forma lenta e tímida. Mas o poder público começa a virar os olhos para Guaíra e região. "Depois da chacina, as coisas começaram a acontecer por aqui", diz o delegado da Polícia Federal na cidade, Érico Saconato. A chacina a qual Saconato se refere é a do dia 22 de setembro, quando 15 pessoas foram assassinadas em uma chácara do município. No episódio estavam todos os ingredientes da nova rota da criminalidade: dívidas por drogas, vingança e um homicídio não-esclarecido pela polícia devido à falta de tempo e estrutura.

De lá para cá, Guaíra ganhou uma delegacia de Polícia Marítima (Depom) para cuidar do policiamento no Lago de Itaipu. Oito lanchas já estão em operação e quinze policiais vão começar a trabalhar no início do ano que vem. "Era algo essencial para nós trabalharmos com um mínimo de estrutura na repressão ao crime. Vínhamos pedindo isso faz tempo. Felizmente veio", diz o delegado.

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A delegacia da PF também deve ganhar casa nova, em uma parceria com a prefeitura municipal. Na atual sede não há capacidade para abrigar os presos sob custódia, que precisam ser levados para a delegacia da Polícia Civil da cidade. "No Brasil a prioridade número um era a sede da PF em Presidente Prudente e a número dois, Guaíra. A do interior paulista já começou, então a de Guaíra é a próxima", afirmou durante a solenidade o superintendente da PF no Paraná, Delci Carlos Teixeira.

O governo do estado também anunciou a instalação de um Batalhão Independente da Polícia Militar (PM) na cidade e a construção de uma nova sede para a Polícia Civil, já que atualmente a carceragem está com quatro vezes mais presos que sua capacidade normal. Todas essas reivindicações eram pedidos antigos dos moradores, mas só saíram do papel depois que Guaíra virou palco da maior chacina da história do Paraná. "Parece que agora as autoridades perceberam que Guaíra precisava de mais atenção", diz Célia Wessel, diretora do Colégio Jardim Zeballos, o maior da cidade, onde estudavam vítimas e sobreviventes da chacina. "Agora a gente vê carros da Rone, mais viaturas e mais atenção com a segurança."

Para a diretora, porém, ainda não foi resolvida uma questão estrutural na cidade: "A criminalidade continua a atrair crianças e jovens do município". O discurso de Célia é o mesmo da presidente do Conselho Tutelar do município, Laudicéia Martins: "O crime oferece renda e status. O jovem começa a puxar cigarro e passa a garantir o sustento de casa, comprar roupa e tênis. Passa o tempo e ele começa a andar com uma arma debaixo da camiseta, ganha espaço com as garotas. Ele não vai trocar isso pela escola ou por um emprego de R$ 200". Na contabilidade do conselho em Guaíra, os atendimentos relacionados a crimes cometidos por jovens e adolescentes são mais que o dobro da soma de todos os outros. "Praticamente todo o dia somos requisitadas para acompanhar depoimentos e flagrantes nas delegacias e oitivas no fórum. Isso quando não temos de intermediar algo com as autoridades paraguaias. Adolescentes brasileiros detidos lá e adolescentes paraguaios detidos aqui", explica.

O cotidiano de Laudicéia é a expressão máxima de uma realidade que só beneficia o crime organizado. Enquanto o estado e seus órgãos estão presos a fronteiras, trâmites e todo o peso da burocracia, o contrabando e o tráfico circulam por trechos de terra e de água, esquecidos igualmente pelos dois países. "A repressão ao crime na fronteira não pode ser coisa de um país só. Está se lutando contra uma força muito poderosa. Precisamos de um policiamento que englobe todo Mercosul e não é o que acontece. Hoje o exército brasileiro faz manobras o Rio Paraná e o governo paraguaio reclama", afirma o sociólogo e professor da Unioeste, José Afonso de Oliveira.