
José Carlos Fernandes
José Carlos Fernandes é jornalista e professor universitário. Pesquisa a vida extraordinária de pessoas e lugares comuns.
As jornadas de Jordan

dado a testar limites. Na trajetória acadêmica, fez o que parecia impossível:
cursou Medicina e Direito ao mesmo tempo, amargando mais de seis anos de insone
jornada tripla. Não sabia o que era um fim de semana. Acostumou-se a ter poucos
amigos e a não dar folga para conversa fiada. Por pouco não pirou. No auge de
sua maratona estudantil, chegou a ir à padaria com uma schooner – assustado com um noticiário sobre temporais na cidade.
Encasquetou que seria atingido por uma enchente, botando o pão quente a perder.
O mico foi seu grito de alerta. Estava no borderline
– mas seguiu teimando. “Foi o período mais sombrio da minha vida”, lembra o
espartano.
fronteiras, lá estava ele. Bateu cartão por duas décadas no pronto-atendimento
do Hospital Erasto Gaertner, o “hospital do câncer”, como se diz. Uma lenha. Atendia
intercorrências provocadas por quimioterapia, termo que dispensa explicações. Não
raro, ao tirar o jaleco branco, debruçava-se sobre o capô do carro, exausto, e
recapitulava a jornada da eternidade e um dia experimentada no expediente. Mas
que nada – lá pelas tantas, paralelo, se empregou no Serviço de Atendimento
Móvel de Urgência, o Samu. No turno da noite, pois emoção pouca é bobagem. O
trabalho – a nervos expostos e no qual permanece – é uma de suas paixões
confessas. A rotina nas emergências não impede que, depois de tudo, saia às
cinco e pouco da madrugada para correr dez quilômetros, três vezes por semana,
sem refresco. Se estiver chovendo, melhor. “Adoro”, conta.
Raro quem tenha visto de perto um centro de ressocialização e ainda defenda com a boca cheia a redução da maioridade penal
Centro de Ressocialização Joana Richa. Aos pouco habituados com a nomenclatura,
os “Censes” – como são chamados os centros – abrigam adolescentes em conflito
com a lei. No jargão técnico, são meninos e meninas que cumprem medidas
socioeducativas. Dizer que estão presos é errado na perspectiva do Estatuto da Criança
e do Adolescente, o ECA, mas os Censes têm celas com cadeados, como qualquer
outra cadeia. Raro quem tenha visto um desses locais de perto e ainda defenda
com a boca cheia a redução da maioridade penal. A não ser que tenha parafusos a
menos na cabeça e nenhuma mola no coração.
bairro Mercês – é a única unidade do gênero destinada ao público feminino. O
local abriga 34 adolescentes, se é que assim podem ser chamadas. Aos 14-15
anos, muitas delas já viveram três vidas. São como aquelas personagens do
cinema noir, de postura agressiva e
olhar intransponível. Atuar ali não é para amadores. “Acho que a maioria dos
meus colegas de profissão não faz ideia do que se trata. Muitos não suportariam
uma semana. Eu achei que não iria aguentar”, admite, sobre a vontade que teve
de botar sebo nas canelas e fugir... no primeiro dia. Do alto de 1,85 metro,
poucos quilos, voz gutural e sua feição picassiana, Jordan ficou imobilizado
assim que pacientes deram de lhe contar as jornadas que fizeram ao inferno. “Não
imaginava que doía tanto...”, resume. O susto não passou de todo. Mas o curativo
veio ao se dar conta de que o Joana Richa fez com que se sentisse “mais médico
do que nunca”.
as trouxe para a unidade de ressocialização. Tem assalto à mão armada. Alguns
homicídios. Episódios cabeludos. Para algumas dessas garotas, a vida marital se
iniciou quando ainda faziam chiquinhas ou jogavam amarelinha – foram jogadas em
camas nas quais não escolheram estar. As que encontram coragem para contar
sobre seus desertos engatam no choro. Treinado profissionalmente para ficar
distante, Jordan agora é assaltado pela realidade, que lhe passa rasteira.
exceção, nunca vão esquecer o motivo que as trouxe até aqui. Esse motivo
explica a dificuldade que têm de compreensão da realidade. Muitas não conseguem
compreender o valor da individualidade. Sofrem, mas também podem fazer os
outros sofrerem, sem que isso necessariamente lhes cause remorso. Muitas não
conseguem sonhar. São adolescentes que não conseguem ultrapassar a adolescência”,
avalia doutor Jordan. “Tinha ouvido falar de tudo o que vejo aqui. Vi números.
Mas as estatísticas médicas não têm rosto nem nome”, diz o homem que corre nas
ruas da Água Verde, mas que agora também corre nas ruas de um país obscuro.
Muitas gurias falam sem remorso sobre o que as trouxe para a unidade de ressocialização