José Carlos Fernandes

José Carlos Fernandes

José Carlos Fernandes é jornalista e professor universitário. Pesquisa a vida extraordinária de pessoas e lugares comuns.

Bullying? Bullying.

José Carlos Fernandes
José Carlos Fernandes
05/11/2017 21:00
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Ilustração: Felipe Lima

Os que conheceram o jornalista paranaense Victor Folquening (1973-2012) – e foram muitos – hão de concordar que ele era imbatível diante de uma plateia. Conferi mais de uma vez seu talento para as massas. Certa ocasião, convidei-o para falar aos meus alunos de Comunicação. Não tinha pra ninguém. Presenciei um garoto cair da poltrona, de tanto rir, com as descrições do palestrante sobre a pataquada policial que envolveu o assassinato do casal Kovalkevicz, na região de Ponta Grossa. E lembro de quase ter de assoprar um outro, que quase agonizou ao ouvi-lo falar, vejam só, de bullying – assunto que só faz cócegas nos babacas.
Victor descreveu com mesuras de contos de fada e lances de horror o primeiro dia de uma criança na escola. De repente, o menino que a mãe em casa chamava de “bonito”, e o pai de “meu guri”, ouvia no seu encalço um coro ruidoso de coleguinhas, batendo palmas, numa coreografia satânica: “orelha de abano, orelha de abano”, “narigão, narigão”. O pobre, até então, não tinha ideia de seu potencial auricular e nasal, tampouco da excitação que suas protuberâncias causavam na petizada. A descoberta – quem vestiu essa sandália sabe – está longe de ser um McDia Feliz.
Suspeito que Folquening falava de si mesmo, mas não tenho informação de que sua carência de atributos de galã, se me permitem, o tenham prejudicado. Deu uma banana para os torturadores mirins. Que fossem assistir a Carrie, a estranha. Gargalhar da Discoteca do Chacrinha. Conquistador talentoso, namorou as mulheres que quis, muitas, lindas e interessantes na mesma medida, de modo a confirmar a máxima de que beleza não põe mesa. Não há nada mais sedutor do que a inteligência. Listo-o entre as pessoas mais cultas e perspicazes que conheci. Tinha talentos múltiplos – e até hoje me arrependo não ter invadido uma de suas comentadas aulas de Estética, cadeira que dividíamos em instituições diferentes, com vantagem para os alunos dele, é claro.
Pronto, muitos diriam que Victor é a prova de que o bullying é mais uma das baboseiras inventadas pelo politicamente correto. Que existe desde que o mundo é mundo. Que rir é o melhor remédio. Que tinham um amigo apelidado de “Bola” – e ele até conseguiu casar. Que a gurizada tem de aprender a se defender, pois não tem mole para ninguém. Como disse Paulo Leminski, “na vida não se paga meia”. Pois discordo. É fato que alguns iluminados – nosso personagem, por exemplo – têm presença de espírito para driblar a maldade alheia, mas está longe de ser uma regra. Ser zoado por um cordão de sádicos na hora do recreio – e não sangrar – é só para os fortes. Poucos o são.
Acompanho pelo noticiário o caso de Goiânia. A mãe do atirador teria dito que o filho nunca reclamou sofrer bullying. A família de um dos meninos mortos – do qual algum sarro teria partido, provocando o revide – segue a mesma letra e música. Mas agora é tarde para pontos de fuga. A questão voltou à baila, dedo apontado nas feridas. Não se trata de vitimismo – ou de síndrome de garotos que tiveram o azar de encontrar o Kevin Spacey numa festa, a tal “guinada subjetiva”, descrita pela argentina Beatriz Sarlo –, mas de acordar a dor que milhares de pessoas um dia arquivaram. A gente cresce, mas não sara.
De minha parte, o bullying sofrido – com requintes e no plural – não conto nem no pau-de-arara. É meu Alien particular. Vou levá-lo para o túmulo. Tenho para mim, contudo, que há 40 anos os dias eram melhores. Explico. Havia na mesma medida a perseguição dos colegas e o silêncio imoral dos professores, mas os conflitos se diluíam com mais facilidade. Muitos tinham irmãos mais velhos para os defender, com engenhosos sopapos na orelha. A favor, igualmente, as relações de vizinhança. Muitas mães dos agredidos batiam palmas no portão da casa dos agressores e resolviam a peleja ali mesmo. Em caso de reincidência, era só soltar os cachorros. Nem é preciso dizer que guris e gurias que moram em prédios, oriundos de famílias minúsculas e expostos à frieza dos condomínios, gozam de pouca ou nenhuma rede de proteção. E sempre tem a escola negligente, cenário para a tempestade perfeita.
A educadora Araci Asinelli da Luz – do Departamento de Educação da UFPR – costuma dizer que a escola é um dos maiores sistemas de exclusão de que se tem notícia. Um dos orientandos de doutorado de Araci, o capitão da PM Luciano Blasius, estudou a fundo a violência praticada no sistema de ensino. São raros os casos em que o aluno registra a agressão sofrida pelo próprio professor, e a recíproca não é verdadeira. BO de professor tem de penca. Mas a vida como ela é confirma que esses dados não correspondem aos fatos. Em miúdos, o bullying praticado pelos coleguinhas de classe reflete – também – uma escola indiferente e uma família que ensina a surrar, com a mesma eficiência com que adestra a repetir “por favor” e a não falar com a boca cheia.
Não sou especialista no assunto – longe de mim –, mas só um cego não vê que o bullying é, digamos, corporativo. Tem métodos, metas e focos. “Olhe Tavinho, aquela gorda (risos)”, escutei tempos atrás de uma mãe, em cochichos para o filhote de uns 8, 10 anos, num corredor de supermercado. Não há laboratório melhor. Também no super presenciei um pai esfregando o nariz de seu herdeiro numa gôndola de reluzentes prestobarbas. “Isso aqui é que é coisa de macho.” OK, meus dois míseros exemplos não provam nada, ainda que digam tudo. Mães que se nutrem de seu “capital de magreza” ensinando os filhos a zombar das obesas; e pais que se pelam de medo de ter um filho veado não são regra, mas arrisco dizer que estão longe de ser exceção.
O mesmo se diga da escola. Ilustro. Em 2013, tive a sorte de orientar as hoje jornalistas Mariana Ceccon e Marina Mori numa grande reportagem sobre bullying contra transexuais – de modo a explicar a baixa escolaridade dessa população. Quase demos com os burros n’água. Como a maioria dos grupos minoritários transformados em caça, os trans – descobrimos meio tarde – tendem a driblar a tirania do sistema, dando-lhe, com perdão ao trocadilho, uma banana. Deixam a construção do corpo para mais tarde, quando são capazes de se defender; e são cada vez mais graduados. Esse milagre só não é visível porque as estatísticas relativas a trans são um lixo. Não se sabe quantos são, que dirá o número de anos que passam nos bancos escolares. Bullying? Bullying.
De todas as narrativas sobre execração pública dada pelos entrevistados – sofridas no sacrossanto ambiente escolar –, a mais horripilante veio de um adolescente trans de Mandirituba. Seu principal algoz era uma professora, que, dedo em riste, gritava na sala de aula, feito uma profeta em Sodoma: “Eu sei o que você é”. Não causa surpresa que “J.” tenha se convertido no brinquedinho da hora do recreio, uma bola de meia da turminha. Seu único refúgio, o WC das meninas, ainda que o espaço lhe fosse vetado. Como bem diz o educador português José Pacheco, da Escola da Ponte, o Brasil não resolveu o problema com o banheiro. Sabe-se a merda que isso dá.
O episódio de Mandirituba não resume a escola – é claro. Nenhum professor vai trabalhar com o intuito de promover o bullying, mas cá entre nós, tem algo de errado no reino onde se garganteia Piaget, Paulo Freire, Saviani, a turma toda. Perdoem a franqueza – mas as instituições de ensino dizem ter mais do que se ocupar do que com “pegação no pé” entre guris e “meninas que viram a cara umas para as outras”. A gente também acha isso, pelo menos até uma criança das nossas se ver convertida em presa. Aconteceu na minha. É um estupro moral. “Meu filho não faz nada. Ele é brincalhão, só isso…” Levante a mão quem acha essa frase uma fantasia.
Esse papo aranha vale para as universidades, que se julgam noutra esfera. Numa das quais trabalhei, colegas de magistério relutavam em assumir o nome social de uma aluna trans. Diziam temer processo administrativo. Mas respeitavam o pedido expresso de uma mãe para que seu filho, na hora da lista de presença, não fosse chamado pelo sobrenome que tanto sofrimento tinha lhe causado – “Pinto”. Seria cômico, não fosse trágico.
(Coluna dedicada ao jornalista Victor Folquening, que na próxima segunda-feira, dia 6, faria 44 anos.)
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