Redação

Os pequenos poetas da E.M. Vila Torres

Redação
09/06/2019 20:00
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A pedagoga mineira Hassimad Raslan (diz-se “Rácimad”), 42 anos, não sabe ao certo quando foi nocauteada pela poesia. Na sua lembrança, desde antes de ter juízo. A tese é confirmada pelos familiares, que a descrevem como uma menina espoleta que dizia versos em palcos improvisados, mesmo que fossem montados pela imaginação, entre o fogão e a geladeira.
A culpa, suspeita, deve ser do pai – de origem libanesa, entregue ao mundo (o árabe e o não árabe) e à literatura, mesmo vivendo numa cidade minúscula das Minas Gerais. Vencia distâncias com alma de mascate. Dele a filha também herdou os traços do povo dos desertos. Em vez do nariz avantajado, olheiras que lhe dão um ar existencialista, cabelos muito negros e uma inquietação que lhe coça a língua desde as primeiras horas da manhã. Hassimad é um ser que fala. É capaz de pôr para rodopiar uma dezena de ideias por minuto – e tudo faz o maior sentido.
Também sabe ser
engraçada – o que é um bálsamo para os colegas de trabalho, professores como
ela na Escola Municipal Vila Torres. Fica do ladinho do Teatro Paiol, um dos
cartões-postais da capital paranaense. A regra vale para a diretora – Cristina
Estela Marques Silva, a Cris – e para os colegas em geral. Hassimad é um fato.
Fosse atriz, poderia
atuar em Órfãos da Terra – a novela
das seis da Rede Globo, cujo mote são os refugiados. No núcleo dramático ou no
cômico, não faria feio. “Acho que ela tem altas habilidades”, arrisca a amiga –
e também pedagoga – Fabiana Moura Aragão Kupzik, 36 anos. Não exagera, pois tem
conhecimento de causa em superdotação. A professora Hassimad, a “do quarto ano”,
também ensina ciências e é um ás do xadrez – para citar dois dos muitos
talentos que acomoda em seu corpo elétrico. Mas nenhum item do currículo chama
mais atenção do que a capacidade inacreditável de fazer uma sala de aula com
quase 40 crianças se atirar na piscina de bolinhas chamada poesia.
Não há estatísticas, mas, a contar pelo que se ouve por aí, a maioria dos educadores acha o ensino e a prática da poesia uma tarefa inglória, um assunto para congressos, programação de fim de ano. Motivos: qualquer atividade que exija uma dose mínima de informalidade para acontecer pode levar a petizada em alarido a subir pelas paredes – e seus mestres, a arrancar os cabelos.
O medo desse gênero tem efeitos imediatos de primeiro, segundo e terceiro grau. Pesquisa de 2010 da série Retratos da Leitura no Brasil, com acento no Paraná, mostrou que apenas 0,9% dos paranaenses sabiam, por exemplo, quem era Paulo Leminski, poeta mais popular da nossa paróquia. Parte desse desprezo, pode-se arriscar, se deve ao abismo entre a escola e a propagação da poesia, por motivos inclusive divinos, se bem me entendem.
A máxima não vale para Hassimad. “Não vejo tanta dificuldade assim”, avisa, no que é mais uma vez socorrida por Fabiana: “Ela gosta de poesia. É o que basta para dar certo”. Traduzindo – incluir Cecília Meirelles, Vinícius de Moraes e demais no meio de qualquer atividade faz parte de seu jeito de ser e de estar. A professora foi moldada por essas lides. É só chegar perto para saber.
A transformação da sala num slam – com crianças que nem saíram da saia da mãe se pondo a produzir versos autorais – causa espanto mesmo entre educadores tarimbados, que gastaram muito latim para pensar a literatura na escola. Nas mãos de Hassimad, a poesia é um prato pelando, que se come pelas bordas. Como é que ela consegue? Não esperem discursos inflamados, citações a autores que não sejam poetas, teorias borbulhantes, bravatas, rodapés ou um manual de orientações. Bem já lhe pediram que “colocasse no papel”, mas tudo o que conseguiu foi encher pastas com os versos e desenhos produzidos por seus alunos. E acumular infinitos arquivos em vídeo e fotos, nos quais as crianças aparecem no púlpito, declamando, não raro, a si mesmas. “Tenho dificuldades com o mundo digital”, admite. Identifica-se com a autodefinição de Jô Soares: “Sou um influenciador analógico”. Ponha no feminino, e você a enxergou.
Uma das mais
influenciadas por Hassimad é a própria Fabiana. Cursaram Pedagogia à mesma
época, na UFPR, mas só se tornaram próximas quando desembarcaram na Escola
Municipal Vila Torres, em 2012. Fabiana tem outros paladares literários e está
longe de carregar livros de poesia na bolsa – como faz Hassimad. Ninguém vai
vê-la num rompante, levantar da cadeira e abrir os braços para declamar um
Drummond, algo assim. Já para a colega... continua um pouco a menininha lá de
Minas.
Mesmo sendo diferente,
Fabiana não resistiu observar as antifórmulas aplicadas por Hassimad em sala,
todas dignas de concorrer a uma comenda das “práticas educacionais para quem
gosta de se arriscar”. “O que conta primeiro é a criatividade... O resto vem
depois”, define. Vem mesmo. A professora poeta faz a turma soltar as asas, mas é
durona e trata a prosa e o verso com a mesma rigidez que a história ou as
ciências. Graças a essa afinação, é comum ouvir na escola da Vila Torres
expressões como “tipo haicai”.
Sim “tipo”, pois a gurizada não segue à risca a regra das composições em três versos com cinco, sete e cinco sílabas. Que fique claro. Outra expressão que se ouve pelos corredores: “Aí tem poesia ou não?” Arrisca ser quase tão comum quanto “o que tem de lanche hoje?” A pergunta vale para qualquer situação – um desacerto na comunidade, um noticiário ruim, um desafio qualquer no interior da escola. Quem encontra a poesia encontra a poética, que em última análise é “o espírito das coisas”.
A popularidade da
poesia na escola só tem uma explicação – não é assunto para de vez em quando.
Volta e meia, a professora mineiro-libanesa promove batalhas de rimas. Pensem
no barulho. Pipocam rimas pobres, com combinações tolinhas para palavras
terminadas em “ão” e “inho”. Mas também surgem as ricas, que a cada nova edição
da brincadeira tiram a divertida Hassimad do prumo e a colocam nas baias da
emoção. Uma de suas descobertas mais conhecidas foi o pré-adolescente João Victor
Mayer Pimentel Moreira, morador da Vila Torres. Sua verve tirou o chão de meio
mundo.
Mais da metade da
clientela da Escola Municipal Vila Torres é formada por crianças oriundas da
comunidade que lhe dá o nome – situada algumas quadras abaixo, somando 6,5 mil
moradores. Parte dessa população está abaixo da linha da pobreza, e vive da
coleta de recicláveis e na informalidade. A outra parte – com poucas exceções –
também vem de lares com poucos livros, escolaridade incompleta e nenhuma
intimidade com os autores que Hassimad lhes apresenta. Graças a essa militância
cultural, tem menino e menina declamando versos – entre o fogão e a geladeira.
Um dos esportes preferidos da professora é dividir a sala em time da Helena Kolody e time do Paulo Leminski. Festa. Quem decora os poemas ganha mais pontos do que quem lê. E há uma premiação para os que socorrem os colegas quando esses esquecem uma frase qualquer. Volta e meia alguém do time da Helena socorre quem esqueceu um verso do Leminski. Nessas horas a Terra gira mais rápido e parte da dívida com os mais pobres é saldada. Quem duvida, que argumente.
Em tempo. Volta e meia a E.M. Vila Torres ganha varais, nas quais Hassimad pendura poemas, para que a turminha possa escolher os de que mais gostam. A primeira etapa da seleção é feita com desenhos: os pequenos leitores indicam na folha de papel sinais para "gostei", "não gostei" ou "mais ou menos". Não há como comprovar à moda tecnicista, mas a educadora não tem dúvida de que a poesia gera afeto, tolerância, além de conhecimento. Coleciona episódios de aceitação religiosa, inclusão dos que têm necessidades especiais, acolhida dos traumatizados em geral. As rodadas de poesia tendem a acabar em dança, abraços e em vídeos clandestinos das gurias imitando o jeitão mineiro de Hassimad, um desacato poético, digamos, aos contidos paranaenses.
“Quando uma turma ainda não se gosta o bastante a poesia não flui”, avisa, num dos raros momentos em que se permite teorizar. Fabiana, por essas e outras, passou de observadora dos feitos pedagógicos da amiga para sua seguidora. O ano de 2019 lhe pertence. Além de também tremer o chão da escola com poesia, promete ultrapassar seus limites – planeja para os próximos meses uma espécie de flashmob, no entorno do Teatro Paiol. “Os alunos vão distribuir na calçada os versos que escreveram”, adianta. Bom saber.
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