Não passa uma semana sem que alguém – na rua e nas redes – aborde a jornalista curitibana Elisabeth Mader do Amaral Gurgel. Pedem-lhe um favor: que reabra a Lilith, tida como a primeira livraria feminista do Brasil. Bebeti, como é conhecida, sabe que são poucas as chances de o empreendimento ganhar uma nova encarnação. Mas promete pensar no assunto – não tem como ignorar tamanho afeto a uma loja de livros, coisa rara em tempos de barbárie.
A história da Livraria Lilith se confunde com a de Bebeti do Amaral Gurgel. Tanto que, não raro, alguma freguesa atrapalhada a chamava de “Lilibeti”, entre outras variações para o tema. Achava graça. Em “11 anos”, como gosta de frisar – numa alusão ao número que marca os ciclos de sua vida – viu centenas de mulheres entrarem na Rua XV de Novembro, 420, endereço da extinta Galeria Schaffer, espaço da prefeitura onde o comércio estava instalado. Procuravam biografias – a de Rosa Luxemburgo, por exemplo –, um romance de Clarice Lispector ou o último título das Marguerites, a Duras e a Yourcenar. Muitas clientes queriam saber de Camille Claudel e de Isadora Duncan. Outras namoravam o grosso volume de O segundo sexo, de Simone de Beauvoir, sem que fossem às vias de fato. Todas, sobretudo, queriam botar os pés no solo sagrado da Lilith, como se intuíssem que pisar ali somava a suas próprias biografias.
Não se trata de exagero. No pouco mais de uma década em que a Lilith foi um dos endereços mais efervescentes da cidade – comparável, então, ao Teatro Paiol –, as frequentadoras encontraram mais do que livros: tiveram acesso às feministas mais aguerridas do país. Rose Marie Muraro e Danda Prado, para citar duas, costumavam flanar por ali nas muitas noites de debate que a casa promoveu entre 1992 e 2002, período de sua breve existência. Tudo sem frescura. Bebeti botava um bilhete na porta, arrumava as cadeiras em círculo e estava instalada a revolução. Da imprensa cultural à coluna social, ninguém se fazia de surdo.
Para a imprensa, era uma “barriga”, no jargão profissional, desprezar qualquer invencionice de Bebeti. Culta e viajada, antecipava na província discussões que enchiam a Europa de som e fúria. Ninguém queria ser acusado de tamanha caipirice. Para os colunistas, tratava-se de uma Mader-Amaral Gurgel. Desde a adolescência, ela bem que tentou negar as pompas e circunstâncias do sobrenome que invocava ervateiros, cafeeiros, industriais, o capitalismo selvagem. Sem sucesso. Uma ida sua à feira que fosse atiçava a caneta do colunista Dino Almeida, da Gazeta do Povo. O pedigree fazia eco nos ouvidos mais seletivos, como o de Aramis Millarch, do jornal O Estado do Paraná. Bebeti era notícia mesmo que estivesse atirada a um sofá, entregue a um livro, sua atividade predileta. Que diria quando se punha atrás de um balcão, falando de poder feminino com moçoilas que mal tinham desfeito as marias-chiquinhas. No mais, alguém sempre lembrava que ela era prima da atriz Malu Mader, prenúncio de uma conversa fiada, quesito no qual também não decepciona.
A combinação explosiva dos nomes Bebeti & Lilith não se resumia à paróquia. Nas pastas em que guarda recortes de jornal, telegramas, ofícios e cartas (a de um presidiário, inclusive) referentes à livraria, saltam textos publicados na Holanda, Japão, Chile, para citar três países que registraram o funcionamento de uma iniciativa como aquela, no Sul do Brasil. Com tamanho impacto, não tardou para que as rodas com feministas no interior da loja evoluíssem para concorridas festas em casas noturnas e espaços culturais. Causavam. Uma delas foi na Classic, Marechal Floriano Peixoto, 1.535, até então uma espécie de templo discreto de lésbicas da capital. Outra, no Cine Ritz, sede do festival Mix Brasil, cuja ousadia sucumbiu à neocaretice dos anos 2000. Onde havia fumaça e fogo, estava a Lilith, a livraria que tirou a cidade do armário.
Ninguém com um mínimo de inteligência ignorava o que acontecia na loja 3 da Galeria Schaffer. Em meio aos aproximados 8 mil volumes era possível cruzar com gente como o escritor Dalton Trevisan, que arriscou sair da toca para ver o bicho que dava. Atenta ao script, Bebeti e suas funcionárias não o molestaram. Fingiram não conhecer o sujeito de conga e boné, que levava até cinco livros de enfiada e pagava tudo em espécie. O Vampiro não seria descuidado a ponto de soltar um cheque, cuja assinatura o denunciasse. Nem de desprezar um treco tão avesso à província, palco para falar de amor, sexo, política e religião, tudo com pimenta. À imagem e semelhança de sua proprietária, a livraria rejeitava tons beges e pianíssimos.
Bebeti é filha única e teve formação devotada a uma Elisabeth. Estudou no Colégio Sion, cuja rigidez ganharia menção honrosa em um dos mais de 20 livros que escreveu – Pecados safados, publicado em 1993 pela editora de repertório Rosa dos Tempos. Formada em Jornalismo pela UFPR, alcançou mais êxitos do que a maioria poderia sonhar. Trabalhou com o mago do design gráfico Reynaldo Jardim, no Correio de Notícias. Frilou para os grandes da imprensa nacional. Cedo se lançou como escritora. O livro de poemas Coisas foi lançado em 1975, pela prestigiada Grafipar. Também leva sua assinatura um dos estudos pioneiros sobre Maria Bueno – Santa de casa faz milagre.
Mesmo assim, para desespero de seus pais, ela estava de malas prontas. Sem um “puto” no bolso, como gosta de contar, embarcou num cargueiro encardido rumo à Holanda, país que adotaria. Ainda hoje, passa seis meses por ano em Amsterdã. “Fui na louca, mas tudo deu certo para mim”, conta. Emprego, amigos, amores, casa e o encantamento ao descobrir que nos Países Baixos havia altas livrarias feministas. Virou freguesa. Empregou-se em uma delas. Foi quando decidiu que abriria uma, em Curitiba, com o polêmico nome de Lilith, a lendária primeira mulher de Adão, amaldiçoada por não aceitar se deitar abaixo dele – entre outras mitologias pelas quais circula, invariável e deliciosamente infernal.
Planejou cada etapa, como se tivesse estagiado no Sebrae. Cumpriu. Do piso ao teto, tudo na livraria leva a assinatura de mulheres. Tem a arquitetura de Maria Helena Paranhos, o planejamento gráfico de Maria Ângela Biscaia. As paredes foram pintadas por… operárias. Havia “vendedoras”. O mais interessante: nas estantes, colocaria apenas os escritos “por elas”, nos mais diversos assuntos – da ciência à “indecência”, em qualquer língua de qualquer país. Nenhum título passava da porta sem a curadoria de Bebeti. Do esforço resultou um acervo tão sortido que logo caiu nas graças dos poucos estrangeiros que visitavam ou viviam nessas bandas. Além do mais, podiam falar com a dona da loja em mais de um idioma, o que explica a Lilith ter se tornado uma verdadeira embaixada da ONU no Calçadão da XV.
Com tanta vitrine, a já agitada Bebeti – uma mulher alta, magra e calorosa – se viu tão requisitada quanto uma Marilena Chauí. Sentia-se uma moradora do Aeroporto Afonso Pena. As universidades a queriam em congressos. O movimento social lhe pedia uma fala. As editoras a assediavam e uma delas a levou, a Brasiliense – sim, a da Coleção Primeiros Passos, para citar um dos golaços da empresa que está na origem da Companhia das Letras.
Um dos orgulhos de Bebeti foi ter publicado pela Brasiliense o primeiro romance nacional cuja protagonista é lésbica – A quem interessar possa, de 1993. Também fez coletâneas pela editora, como Erótica: nada menos do que 20 mil brasileiras mandaram contos para a seleção, uma peça rara sobre o desejo e a repressão feminina. Agradece as contínuas lembranças à Lilith, mas não consegue deixar para lá que seu grande feito é literário. O diário supersecreto de Carolina, por exemplo, ganhou uma edição na Sérvia, privilégio reservado a apenas uma dezena de brasileiros. Um de seus livros infantis, As Confusões da Duda e do Dudu, em parceria com Enzo Dornellas, antecipou no tempo o debate sobre inclusão, tolerância e gênero. Mais? Bebeti foi colunista da revista Femme – um material à espera de virar coletânea. Não para de produzir.
“Terminei de escrever um livro esta semana”, diz, em meio às paredes apinhadas de obras que um dia pertenceram à Lilith. Nas estantes do apartamento do Bigorrilho, mantém plaquinhas indicadoras dos assuntos, como naquele tempo. E um recado escrito à mão: “não empresto livros”. Nas paredes, os cartazes que um dia decoravam a livraria. Num deles se pode ler: “Los libros no muerden. El feminismo tampoco”. A propósito, anda animada com o que vê. Enxerga o neofeminismo como uma resposta “na lata” ao governo Temer, para o qual reserva cobras e lagartos. Anda afiada nos debates sobre “lugar de fala” e “apropriação cultural”. Não cansa de exigir reparos à presidente Dilma. Ouvindo-a, resta a tentação de dizer que a Lilith nem precisa ser reaberta, pois nunca de fato fechou.
(Coluna dedicada à jornalista Lúcia Camargo, que em 1992, junto à prefeitura, trabalhou para garantir a abertura da Lilith, a livraria feminista.)