José Carlos Fernandes

José Carlos Fernandes

José Carlos Fernandes é jornalista e professor universitário. Pesquisa a vida extraordinária de pessoas e lugares comuns.

As sociedades e as chamas

José Carlos Fernandes
José Carlos Fernandes
12/11/2017 21:00
Thumbnail

Arte: Felipe Lima

Semana passada, sei lá, foi como estar ao pé do rádio para saber das últimas da Segunda Grande Guerra. O noticiário sobre o incêndio que devassou a Sociedade Água Verde lembrou, e muito, locuções que a maioria só conhece dos filmes. “Tragédia incontrolável”, “chamas devoram o prédio”, “ainda não há informações sobre vítimas”, frases feitas, que, suspeito, jaziam em paz na cartilha de um velho radialista. O fogo tem poder de abrir baús. Sabemos o que faz quanto pinta no pedaço – transforma memórias em cinzas (clichê, perdão), uma metáfora mais do que perfeita para nos lembrar que a morte, essa chata de galochas, a qualquer momento pode aparecer para estragar nosso café da tarde.
Penso que o incêndio da Sociedade Água Verde causou comoção extra por se tratar de um clube das antigas. Dormem de pijaminha no nosso imaginário. Pouco se fala deles, à revelia do que representaram. Viraram salões de casamento para as Marias Vitórias ou bailões – os chamados “desmanches”, se me permitem. Mas nalgum mofo das paredes, num dos muitos riscos do piso de madeira, está escrito: em lugares assim, Abílio tirou Nancy para dançar. Começou um grande amor de matinê. O primeiro porre, o primeiro cigarro. Aquela música tocou, na voz de um crooner que quem viu e ouviu daria um dedo para lembrar o nome. Onde andará o bonitão de cabelo à gomalina que cantou Love is a many splendored thing, como se tivesse acabado de roubar um beijo de Jennifer Jones?
Tenho para mim que as agremiações esportivas, étnicas, culturais ou operárias podem ser uma das chaves para explicar o tal jeitão curitibano, esse enigma de Kasper Hauser. Se é que tudo não passa de invenção da grossa, pois gente é meio igual em qualquer esquina, os adoráveis estranhos nascidos nos pinheirais conheciam a civilização ao pisar num salão de clube. Era onde faziam seus ritos de passagem, para além de seus imensos quintais. Se são de fato tímidos, falastrões, antipáticos, reservados, algo assim, muito se deve ao dia em que receberam dos seus pais a carteirinha de sócio de um clube – uma Sociedade Água Verde, por exemplo. Há uma contradição nessa fala – é claro, mas não se podia esperar outra coisa em se tratando de CWB.
Há 12 anos, fiz um levantamento sobre a quantidade de sociedades do gênero existentes em Curitiba. Foi de surpreender estatísticos do Ipardes. Pensei que o circuito ia do Juventus ao Concórdia, passando pela bela Garibaldi, com um desvio na distante Abranches. Que nada. Devo ter errado a conta, inclusive. À época, somamos nada menos do que 44 clubes dos tempos do epa. A quem interessar possa, faziam as vezes da previdência social e financiavam velórios e soldos para viúvas. Seriam mais em número, se estivessem na lista as que fecharam, as que faliram, as que fundiram. As que foram devoradas pelo mercado imobiliário – em especial as que se resumiam a uma quadra de bocha, um campo de futebol e a uma sede para jantares, a exemplo da supimpa Bacacheri F.C. ou da pequena Ypiranga F.C – que hoje morre em pé como as árvores nos altos da Rua Silveira Peixoto.
Pois, querido leitor, divida os imperfeitos 44 pelo número de habitantes da cidade em, sei lá, 1960, ano em que todas as agremiações mantinham suas portas abertas, com programação de quinta a domingo, presidentes e conselheiros a postos e brotinhos na disputa por uma vaga na festa de debutantes. Temos um fenômeno. A capital que muitos insistem em chamar de jeca tinha 361.309 habitantes. Mesmo que uma pá de curitibanos – como a minha família, que vivia nos rincões da Vila Leão – não fosse sócia de coisíssima nenhuma e sua única diversão fosse ir à missa, muita-muita gente gastava a sola do Vulcabrás nas pistas de dança das sociedades. Hoje se diz que os shoppings – também incontáveis – são a nossa praia. Pois um dia nossos balneários atendiam pelo nome de Urca, Dom Pedro II, Duque de Caxias, Vasco da Gama, Thalia… e Clube Curitibano, para quem podia mais e chorava menos.
Não tomem por saudosismo. Cara de pau, pretendo aqui provocar um pouco de sociologia urbana, um bocado de história das sociabilidades, um jornalismo de territórios. Sugiro sobretudo um exercício de imaginação, que não custa nada, nem latim precisa gastar. Ir a um clube exigia um ritual diferente do que o necessário para salgar os miúdos no Litoral – para o que uma toalha, uma esteira e um chinelo bastavam. Tinha de tomar banho, botar roupa de domingo. Eles caprichavam no Acqua Velva. Elas, no perfume de maçã da Helena Rubinstein – água de cheiro de moça de família, como um dia me explicou a especialista no assunto Aliete Prosdócimo, a maga da Socila.
Mais. Festa na sociedade tinha hora para começar. E para terminar. Quando observo as distintas senhoras que frequentam os cafés coloniais dançantes da Confeitaria Piegel, para citar um caso, não é difícil vê-las tal e qual – só que com menos tintura no cabelo – numa tarde de confraternização, em algum lugar do passado. Eis a tese: esses lugares criavam um padrão de comportamento que, arrisca, se perpetua ainda hoje na cidade que adora fila, horário e onde as pessoas se vestem e se penteiam para ir à padaria, comprar pão. Bobagem?
A “era das sociedades”, aliás, não se resume aos espaços frequentados pelo nosso ruidoso 1% da população – que reinava nas colunas do Dino Almeida e da Juril Carnasciali. A própria Sociedade Água Verde, até onde eu sei, não era endereço da nata, mas de levas de operários da Todeschini. Havia o Clube Literário, no Portão, com folga um dos que deixaram mais saudades. A Sociedade Umbará – que merecia uma visita do pessoal do Patrimônio Histórico, antes que os cupins se encarreguem do serviço. No Xaxim reinava a Sociedade 5 de Julho, em cujo salão nasceu a Risotolândia, hoje com mais de 4 mil funcionários. Ainda estamos em dívida com a história desses clubes – e sua contribuição para a cultura. Podemos nos espelhar em quem já se mexeu. Sugiro assistir ao documentário Aristocrata Clube, de Jasmin e Aza Pinho, sobre a primeira agremiação brasileira para negros da classe média, em São Paulo. Ray Charles, Cassius Clay e outros bambas internacionais circularam por lá, pois é.
A propósito, paralelo ao clube de alemães, como o Concórdia e a Duque de Caxias, ou dos italianos – a Garibaldi –, urge lembrar das sociedades operárias. Podiam ser também étnicas, como a polono-brasileira Thadeusz Kosciuszko. Faz pouco foi objeto de um estudo dos historiadores Tatiana Marchette e Vidal Costa. A Thadeusz, ali pertinho do Belvedere, é de 1890, quando Curitiba era Kurytybie. Sua existência desmente em cada pedra do quintal que os eslavos viviam escondidos na periferia, plantando batatas, rezando terços e lendo o jornal Lud. Muitos estavam na luta pelos direitos trabalhistas – esses que o país agora atira aos porcos.
O mesmo se diga sobre a mais impressionante de todas as sociedades curitibanas – a “13 de Maio”, nascida num lugar mágico, em meio aos paralelepípedos do bairro São Francisco, de frente para a Alameda Princesa Isabel. As origens da “13” remontam, que ironia, a meses antes do Dia da Abolição, que acabou lhe dando o nome. Em cada página de suas atas se descobre que havia aqui não só muitos negros forros como liberais e alfabetizados, espinha ereta o bastante para fazer valer o que chamavam de uma “sociedade dos homens de cor”. Aquelas paredes de madeira – tão propensas ao fogo – abrigaram um sonho de país, agora pesquisado pelo advogado de origem japonesa Thiago Hoshino. Bacana, né? De todas as narrativas, a mais impressionante é de que no salão da “13” teria sido velada nossa santinha e mártir municipal, a Maria Bueno. A história não foi confirmada – assim como não sabemos o bicho que deu o amor de Abílio por Nancy ou o destino do crooner que amava Jennifer Jones. Sobre as sociedades pairam mistérios. Choro só de imaginá-los.
Este site utiliza cookies e outras tecnologias para conhecer melhor nossos usuários, exibir publicidade personalizada e aprimorar nossos serviços. Ao utilizar nossos serviços você concorda com a Política de Privacidade ePolítica de Cookies.