Somos professores do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Paraná e queremos deixar claro nosso repúdio ao que aconteceu na tarde de 29 de abril em frente ao Palácio Iguaçu. Admitir calado o que aconteceu é selar a morte de nossas instituições democráticas, que pressupõem o direito não apenas de se manifestar contra ou a favor das medidas de governo, mas também de pressionar publicamente as instâncias de governo a adotar ou desistir de certas políticas.

CARREGANDO :)

O governo do estado preparou-se de antemão para uma verdadeira guerra contra a sua população

Publicidade

Organizar-se, manifestar-se e pressionar os deputados a votar segundo o que se entende ser um direito é uma prerrogativa fundamental dos indivíduos numa democracia. Queremos insistir que não se trata apenas do direito de expressar uma opinião contrária a uma determinada política, mas de usar dos meios de pressão disponíveis para isso – o que, evidentemente, não é o mesmo que justificar ou incentivar a violência.

Violando essa prerrogativa que prevê o direito de manifestação política, o governo do estado preparou-se de antemão para uma verdadeira guerra contra a sua população, a fim de fazer passar uma lei que sabia ser impopular e, mais importante que isso, capaz de mobilizar resistência e mesmo a ira da população. Com o aparato de guerra que montou e usou contra a população, o governo declarou que a multidão ali presente não podia, nem de direito nem de fato, pressioná-lo em suas políticas.

Daí a questão: que governo é este, que sabe que suas medidas são capazes de produzir tamanha insatisfação, mas que não apenas insiste nelas como responde com violência desmesurada e descabida às manifestações contrárias? Certamente não é um governo democrático, que deve sempre admitir como parte das relações político-democráticas reações populares contrárias às medidas que toma. Um governo democrático implementa suas políticas não pela violência policial, na marra, mas por meio da capacidade de representar a maioria e de mobilizar as forças sociais a seu favor; para tal, precisa discutir publicamente suas propostas, concedendo tempo ao debate democrático, algo que tampouco foi garantido. O que mais aflige, porém, não é o caráter antidemocrático do governo Beto Richa, aspecto que sempre se pode rebater pelas vias democráticas, como fazemos aqui, enquanto houver democracia. O que torna ainda mais urgente uma oposição categórica a este governo são os fumos de fascismo que exala quando se vê, pela envergadura da violência empregada, que o governo não se mostrou preocupado nem sequer com a vida dos que lhe faziam, nas ruas, uma democrática oposição.

Maria Isabel Limongi é professora do Departamento de Filosofia da UFPR. Texto escrito em colaboração com Edmilson Paschoal, Luiz Alves Eva, Leandro Cardim, Marco Antonio Valentim, Maria Adriana Cappello, Paulo Vieira Neto, Rodrigo Brandão, Vinicius de Figueiredo, André Duarte, Vivianne Moreira, Eduardo Barra, Ronei Clécio Mocelin, Emmanuel Appel e Tiago Falkenbach, professores do mesmo departamento.