| Foto: Foto: Antônio More/Ilustração: Felipe Lima

A folhas tantas de Quase tudo, autobiografia de Danusa Leão, a autora tenta explicar as razões de seu sucesso. Não é atriz, nem cantora, nem ficcionista. Mesmo assim, tornou-se uma das mulheres do Brasil. "Deve ter sido por causa do nome", especula. Ninguém se chama Danusa impunemente. É forte, é sonoro, é diferente.

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É mais ou menos o que diz outra mulher que conheço. Ela se chama Jesus. Para bem dizer, Maria de Jesus. Mas quis o destino que quase todos quase sempre se esquecessem disso e a chamassem apenas de "a Jesus". É um tal de "eu vi a Jesus" e "mande um beijo para a Jesus, tá".

Há 60 anos, não há dia em que alguém não lhe pergunte por que diabos "Jesus". Resta-lhe contar a história bonita que só foi descobrir aos 7 anos de idade, ainda de tranças e no grupo escolar de Buri, cidade pequenina do sul de São Paulo onde a menina Jesus nasceu.

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No pátio do colégio, a petizada corria pelas costas gritando com som e fúria: "Je-sus, Je-sus, Je-sus, hahahá", como fosse ela uma nazarena. Arrisca ter sido o primeiro bullying sacro depois da era das grandes perseguições religiosas. E lhe marcou feito fogueira da Inquisição.

Vaiada, a guriazinha agarrou-se à barra da calça do pai e quis saber "causa de quê" ganhara o nome de um homem. Ao causo. A mãe de Jesus – Escolástica – viúva jovem e dona de uns bons alqueires, enamorou-se de Pedro Ricabone, italiano foragido da Segunda Guerra e feito padeiro em terras brasileiras. Casaram-se.

O parto da primeira filha foi à moda rural. "Lampião de gás". Às primeiras dores, Pedro arrancou-se em tiro atrás de ajuda. Nem bem levantou a tramela da porta, ouviu: "Não é preciso". Jesus aparecera a Escolástica e lhe ajudara a dar à luz. Daí o nome – uma homenagem ao parteiro ilustre, continuamente invocado na hora das contrações, ainda que na presença dos melhores anestesistas.

Apesar do encanto, a fábula que une Escolástica, Pedro e Jesus mais se parece a uma daquelas tramas em sépia escritas por Charles Dickens. O casal se separa. Pedro fica com Jesus. Juntos, seguem mambembes, a garotinha e seu pai fazendo das distâncias um lar. É ele quem a ensina a dirigir trator. E quem alerta: "Jesus, filha, aprenda tudo o que puder."

Jesus não foi apresentada ao templo, como o original, mas à sociedade de Itapeva, a cidade próxima. No final dos anos 1960, candidatou-se ali a "Rainha dos Minérios". Grande dia. Ela em pose de miss, o apresentador lhe perguntou como se chamava. Já sem medo das vaias dos meninos do colégio, autodeclarou-se "Jesus". Levou a faixa e a coroa.

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Depois Jesus vira funcionária do Banco Intercontinental. A namoradinha de Itapeva. A paixão do engenheiro Paulo Mu­­radás, com quem viria a se casar em 1970. Ganharam o mundo: tiveram três filhos, ajudaram a criar outros dois e fizeram fortuna que mal posso contar nos dedos, multiplicando os pães feitos por Pedro Ricabone, o italiano.

É certo que ter sido abandonada por Escolástica deixou-a em mágoas. Os belos olhos, rasos d’água. Mas há coisa de 30 anos, vejam só, Jesus e Escolástica se viram próximas. A caminho de Termas de Jurema, mãos na boleia, com a família toda dormindo no carro, Jesus teve a certeza de que iria se acidentar. Lembra da derrapada, do carro sob duas rodas e d’Ele, Jesus, tal qual ocorreu à mãe, lhe acenando numa das sofríveis PRs do interior.

Nunca mais Jesus & Jesus se viram tão de perto assim. "Se Ele aparecer de novo, fico bem feliz", brinca. Terão o que conversar. Jesus planeja um tour na Terra Santa – adoraria umas dicas. Falaria da passagem do Evangelho que considera uma barra: "Ama o próximo como a ti mesmo". Do amor bandido de Davi e Betsabá, trama bíblica que a Jesus adora. Tagarelarão as últimas, é claro.

A Jesus empresta sua piscina de Florianópolis para que evangélicos sejam batizados lá. E a pousada que ergueu em Santa Catarina "é a casa dos que chegam." Bem ela que ainda bebê ficou às beiras. Como não nega palavra a ninguém, se desdobra em conselhos a outrem, incluindo aos hóspedes argentinos.

Dia desses, umas conhecidas até lhe pediram que estivesse por perto na hora de um parto. To­­pou. Ninguém, afinal, se chama Jesus impunemente.

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